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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria

Aula 23 — A Ave-Maria e o Santo Terço

Explicação completa da Ave-Maria e do Santo Terço: sua origem, seus méritos, a oração vocal e mental, os quinze mistérios tradicionais e a questão dos mistérios luminosos.

Guia 1 — A Oração CristãQuinta aula deste bloco — a Ave-Maria e o Santo Terço
Nossa Senhora em atitude de oração e intercessão
Na Ave-Maria, louvamos os privilégios que Deus concedeu à Santíssima Virgem e confiamos à sua intercessão o presente e a hora de nossa morte.

A Ave-Maria: louvor e súplica

A Ave-Maria reúne duas partes. A primeira, até “bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”, é formada pelas palavras do Arcanjo Gabriel na Anunciação e de Santa Isabel na Visitação. A segunda — “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte” — é a súplica que a Igreja, ao longo dos séculos, acrescentou à saudação bíblica.

Ao recitá-la, cumprimos a profecia pronunciada pela própria Virgem no Magnificat: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada”. O louvor dirigido a Maria não termina nela: reconhece as maravilhas que o Todo-Poderoso realizou em sua serva e, por isso, glorifica o próprio Deus.

A primeira parte é sobretudo um louvor; a segunda é uma petição. Na primeira, proclamamos a graça e a missão recebidas por Maria. Na segunda, reconhecemos nossa condição de pecadores e pedimos sua intercessão nos dois momentos decisivos de nossa existência: o instante presente e a hora da morte.

Sagrada Escritura

“Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo.” — Lucas 1,28
“Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre.” — Lucas 1,42
“Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Poderoso fez em mim grandes coisas.” — Lucas 1,48-49

Catecismo da Igreja Católica

A oração da Ave-Maria retoma a saudação do anjo Gabriel e a de Isabel; a fé da Igreja acrescenta a súplica dirigida à Santa Mãe de Deus. — Cf. CIC, nn. 2676-2677

“Ave, Maria”

Ave é uma saudação solene. Na cena da Anunciação, um espírito angélico já glorificado apresenta-se com reverência à jovem Virgem de Nazaré. Embora a natureza angélica seja superior à natureza humana, Maria supera os anjos pela plenitude da graça e por sua união singular com Deus. A arte cristã exprime frequentemente essa verdade representando Gabriel ajoelhado diante dela.

A tradição espiritual também percebe um belo contraste entre Eva e Ave. Eva cooperou com Adão na entrada do pecado no mundo; Maria, a nova Eva, cooperou livremente e de modo inteiramente subordinado a Cristo, o novo Adão, na obra da salvação. Cristo é o único Redentor e a fonte de todo mérito; a cooperação de Maria depende absolutamente dele e da graça que dele recebeu.

O nome Maria recebeu diversas interpretações tradicionais, entre elas “Senhora”. Mais importante que uma etimologia incerta é a pessoa concreta chamada por Deus: a humilde serva escolhida para ser Mãe do Verbo encarnado e que, por seu “sim”, colocou-se inteiramente a serviço do plano divino.

Sagrada Escritura

“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela.” — Gênesis 3,15
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.” — Lucas 1,38

Catecismo da Igreja Católica

O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; o que Eva ligou por sua incredulidade, a Virgem Maria desligou por sua fé. — Cf. CIC, n. 494
A colaboração de Maria na obra do Salvador é totalmente singular, mas brota inteiramente dos méritos de Cristo, apoia-se em sua mediação e dela depende. — Cf. CIC, nn. 968 e 970

“Cheia de graça, o Senhor é convosco”

O anjo não chama Maria simplesmente por seu nome, mas por aquilo que a graça realizou nela: “cheia de graça”. Desde o primeiro instante de sua concepção, ela foi preservada do pecado original em vista dos méritos de Cristo; durante toda a vida correspondeu com perfeita fidelidade às graças recebidas.

A exposição da aula distingue três sentidos de plenitude. Em Deus, a plenitude é absoluta e infinita. Nos santos, pode haver uma plenitude proporcionada à missão que Deus lhes confia. Em Maria, há uma plenitude singular e superabundante, proporcionada à dignidade incomparável de ser Mãe de Deus. Segundo a linguagem de São Bernardo, ela é como um aqueduto: não é a fonte da graça — a fonte é Deus —, mas, por disposição divina, coopera maternalmente na comunicação dos dons de Cristo.

“O Senhor é convosco” manifesta a união excepcional de Maria com a Santíssima Trindade. O Pai a escolheu como filha predileta, o Filho fez-se verdadeiramente seu Filho e o Espírito Santo a cobriu com sua sombra. Todos os privilégios marianos têm sua raiz na maternidade divina e são ordenados para Cristo e para a salvação.

Sagrada Escritura

“O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra.” — Lucas 1,35
“Encontraste graça diante de Deus.” — Lucas 1,30

Catecismo da Igreja Católica

Para ser a Mãe do Salvador, Maria foi enriquecida por Deus com dons dignos de tão grande missão e permaneceu pura de todo pecado pessoal ao longo de sua vida. — Cf. CIC, nn. 490-493
A maternidade de Maria na ordem da graça perdura sem interrupção; por sua intercessão, ela continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. — Cf. CIC, n. 969

“Bendita sois vós entre as mulheres”

A bênção proclamada por Isabel manifesta a eleição única de Maria. Por uma mulher o pecado entrou na história; pela livre cooperação de outra mulher, subordinada ao único Salvador, veio ao mundo Aquele que venceu o pecado. A dignidade de Maria ilumina também a verdadeira dignidade da mulher, que não se mede por aparência, poder ou utilidade, mas por sua vocação à santidade e à comunhão com Deus.

Quando Jesus afirma que são bem-aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática, não diminui sua Mãe. Ao contrário, revela o título mais profundo de sua grandeza: antes de conceber Cristo em seu corpo, Maria acolheu-o pela fé e pela obediência.

Sagrada Escritura

“Bem-aventurados antes os que ouvem a palavra de Deus e a guardam.” — Lucas 11,28
“Feliz aquela que acreditou, pois se cumprirá o que lhe foi dito da parte do Senhor.” — Lucas 1,45

Catecismo da Igreja Católica

Maria é bem-aventurada precisamente porque acreditou no cumprimento da palavra do Senhor; pela fé e pela obediência tornou-se Mãe do Salvador. — Cf. CIC, nn. 148-149 e 494

“E bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”

No início da história humana, o fruto da árvore proibida tornou-se ocasião da queda. Na plenitude dos tempos, Maria oferece ao mundo o fruto bendito de seu ventre: Jesus Cristo. Ele é o centro da Ave-Maria e de toda autêntica devoção mariana.

Esse fruto é também o Pão da Vida. O Corpo que Cristo entrega na Eucaristia é o corpo que recebeu da Virgem Maria. A saudação angélica conduz, portanto, ao mistério da Encarnação, da Cruz e da comunhão eucarística: pela humanidade assumida no seio de Maria, o Filho de Deus ofereceu-se por nossa redenção e tornou-se alimento de vida eterna.

Sagrada Escritura

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.” — João 1,14
“Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente.” — João 6,51

Catecismo da Igreja Católica

Depois da saudação do anjo, fazemos nossa a saudação de Isabel e dirigimos o olhar para Jesus, fruto bendito do ventre de Maria. — Cf. CIC, n. 2676

“Santa Maria, Mãe de Deus”

A Igreja chama Maria de santa porque a graça de Cristo nela produziu seu fruto mais perfeito. Chama-a Mãe de Deus não porque ela seja anterior à divindade ou origem da natureza divina, mas porque aquele que concebeu e deu à luz é uma só Pessoa: o Filho eterno de Deus feito homem.

O título grego Theotokos, proclamado solenemente no Concílio de Éfeso contra o erro nestoriano, protege a verdade sobre o próprio Cristo. Jesus não é duas pessoas separadas, uma humana e outra divina; é uma só Pessoa divina em duas naturezas, verdadeira divindade e verdadeira humanidade. Por isso, aquela que é Mãe de Jesus segundo a humanidade é verdadeiramente Mãe de Deus.

A maternidade divina é a raiz da missão e dos privilégios de Maria: sua Imaculada Conceição, sua santidade, sua virgindade perpétua, sua cooperação materna na obra da salvação e sua Assunção.

Sagrada Escritura

“Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe do meu Senhor?” — Lucas 1,43
“Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher.” — Gálatas 4,4

Catecismo da Igreja Católica

Aquele que Maria concebeu como homem por obra do Espírito Santo é verdadeiramente o Filho eterno do Pai; a Igreja confessa que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus. — Cf. CIC, n. 495

“Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”

Depois do louvor, vem o único pedido da Ave-Maria: que a Mãe de Deus interceda por nós. Não especificamos uma necessidade particular, embora possamos fazê-lo em outras orações. Confiamos à sua bondade tudo aquilo de que necessitamos e reconhecemos humildemente: somos pecadores dependentes da misericórdia divina.

A Sagrada Escritura mostra a eficácia dessa intercessão. Em Caná, Maria percebe a necessidade dos esposos antes mesmo que lhe peçam ajuda e apresenta-a ao Filho. Na Visitação, sua saudação acompanha a santificação de João Batista ainda no seio de Isabel. Aos pés da Cruz, Jesus entrega sua Mãe ao discípulo amado e, nele, aos discípulos de todos os tempos.

Pedimos ajuda agora, pois somente o momento presente está realmente em nossas mãos para amar, obedecer, arrepender-nos e viver em estado de graça. E pedimos ajuda na hora de nossa morte, quando se encerra o tempo de merecer e nos apresentamos ao juízo particular. Quem invoca Maria com confiança filial ao longo da vida espera não ser desamparado nesse momento decisivo.

Sagrada Escritura

“Não têm vinho.” [...] “Fazei tudo o que Ele vos disser.” — João 2,3.5
“Mulher, eis aí teu filho.” Depois disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe.” — João 19,26-27

Catecismo da Igreja Católica

Ao pedir “rogai por nós, pecadores”, entregamo-nos à Mãe de misericórdia agora, no hoje de nossa vida, e estendemos nossa confiança até a hora de nossa morte. — Cf. CIC, n. 2677
A Anunciação do Arcanjo Gabriel à Virgem Maria
Primeiro mistério gozoso: a Encarnação do Filho de Deus. Cada dezena do Terço une a oração dos lábios à contemplação de um mistério de Cristo.

O Santo Rosário e o Terço

O Rosário tradicional contém 150 Ave-Marias, distribuídas em quinze dezenas e organizadas nos mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos. O Terço é uma das três partes do Rosário: cinco dezenas, totalizando cinquenta Ave-Marias, além das orações iniciais e finais.

Sua raiz remota encontra-se na prática do Saltério. Judeus e cristãos rezavam os 150 salmos; entre os fiéis que não podiam lê-los, difundiu-se progressivamente a recitação de Pai-Nossos e Ave-Marias em número correspondente. Por isso, o Rosário foi chamado de Saltério de Nossa Senhora. Enquanto os salmos profetizam e cantam o Messias, a Ave-Maria proclama o cumprimento da Encarnação.

Segundo a venerável tradição dominicana, a forma do Rosário que conhecemos está ligada a São Domingos de Gusmão. Diante da heresia albigense e da resistência à conversão, o santo recorreu à oração e à penitência; Nossa Senhora teria indicado o Rosário como arma espiritual para a conversão dos pecadores e a defesa da fé. Mais tarde, em Fátima, a Virgem voltou a insistir na oração diária do Terço.

Os albigenses ou cátaros retomavam erros dualistas e gnósticos: tratavam a matéria como má, opunham dois princípios quase equivalentes e, por consequência, desprezavam realidades boas da criação, como o matrimônio e a geração dos filhos. O Rosário respondia a esses erros de modo profundamente cristão: contempla o Verbo que assume uma verdadeira natureza humana, nasce de uma mulher, santifica a vida material e redime o homem inteiro, corpo e alma.

A divisão em três partes possui rica harmonia simbólica: honra as três Pessoas da Santíssima Trindade; contempla a vida oculta, a Paixão e a glória de Cristo; une a Igreja militante, padecente e triunfante; e acompanha as vias purgativa, iluminativa e unitiva da vida espiritual. Ela pede abundância de graça durante a vida, paz na morte e glória na eternidade.

Sagrada Escritura

“Perseveravam unânimes na oração, juntamente com Maria, mãe de Jesus.” — Atos 1,14
“Meditava todas estas coisas, conservando-as em seu coração.” — Lucas 2,19

Catecismo da Igreja Católica

A piedade da Igreja para com a Santíssima Virgem encontra expressão nas festas litúrgicas e na oração mariana, como o Santo Rosário, resumo de todo o Evangelho. — Cf. CIC, n. 971

Os méritos do Rosário: origem e nome

O primeiro motivo de excelência do Rosário é sua origem: ele amadureceu na oração secular do povo cristão e, segundo a tradição recebida, foi especialmente confiado por Nossa Senhora a São Domingos para combater o erro e reconduzir as almas a Cristo. Não se trata de uma invenção recente, mas de uma devoção profundamente enraizada na história da Igreja.

O segundo motivo está em seu nome. Rosário significa uma coroa ou ramalhete de rosas. A cada Ave-Maria oferecemos espiritualmente uma rosa à Mãe de Deus; cada Terço torna-se uma coroa de louvor. Como a rosa é tradicionalmente chamada rainha das flores, o Rosário é apresentado na aula como a rainha das devoções marianas e, depois da Sagrada Liturgia, uma das mais excelentes práticas de piedade.

São Luís Maria Grignion de Montfort, em sua obra sobre o segredo admirável do Rosário, insiste no apreço de Nossa Senhora por essa oração e nas graças concedidas àqueles que a rezam, ensinam e difundem com fidelidade.

Sagrada Escritura

“Sua memória será como incenso de suave odor.” — Eclesiástico 24,20

Catecismo da Igreja Católica

As formas de piedade do povo cristão prolongam a vida litúrgica da Igreja, sem a substituir, e devem conduzir a ela. — Cf. CIC, nn. 1674-1676

Os méritos do Rosário: as orações que o compõem

O Rosário reúne orações de extraordinária densidade:

  • O Credo, rezado junto ao crucifixo, resume as principais verdades da fé. Ao professá-lo, renovamos a adesão a Deus e fortalecemos o fundamento de toda a vida cristã. Os santos recorreram à profissão de fé para vencer tentações, especialmente contra a fé, a esperança e a caridade.
  • O Pai-Nosso recebe sua excelência do próprio Cristo, seu Autor. Em poucas palavras, ordena todos os desejos e contém os deveres para com Deus e as petições necessárias à vida temporal e espiritual.
  • A Ave-Maria é a saudação angélica, um resumo da doutrina católica sobre a Virgem e, sobretudo, a memória jubilosa da Encarnação. Pela repetição dessas palavras, louvamos o Pai que entregou seu Filho, o Filho que assumiu nossa humanidade e o Espírito Santo que formou no seio de Maria o corpo do Salvador.
  • O Glória reconduz toda a contemplação à Santíssima Trindade, princípio e fim de todas as graças e de toda a obra da salvação.

Honrar Maria é glorificar a Deus, fonte de toda a sua santidade. A verdadeira devoção nunca coloca a criatura no lugar do Criador: louva a obra-prima da graça e, com Maria, proclama que sua alma engrandece o Senhor.

Sagrada Escritura

“É necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe e recompensa os que o procuram.” — Hebreus 11,6
“Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus, meu Salvador.” — Lucas 1,46-47

Catecismo da Igreja Católica

A oração da Igreja é alimentada pela Palavra de Deus e pela celebração da Liturgia; as devoções autênticas orientam o coração para o mistério de Cristo. — Cf. CIC, nn. 2653-2655 e 1675

Os méritos da meditação dos mistérios

O Rosário não é apenas uma sucessão de fórmulas: é uma oração vocal e mental. Enquanto os lábios recitam as orações, a inteligência considera os mistérios da vida, da Paixão e da glória de Nosso Senhor, inseparáveis da presença e da missão de Maria.

Os quinze mistérios tradicionais são como:

  • quinze quadros, cujos detalhes inspiram e orientam nossa vida;
  • quinze tochas, que iluminam o caminho terreno;
  • quinze espelhos, nos quais conhecemos melhor Jesus, Maria e a nós mesmos;
  • quinze fornalhas, que inflamam o amor a Cristo e à sua Mãe.

O objetivo não é apenas recordar acontecimentos, mas tornar-nos imitadores das virtudes contempladas. O Rosário é memorial da vida e da morte de Cristo e escola de perfeição. Bem rezado, comunica um conhecimento amoroso do Senhor que deve transformar as obras, alimentar resoluções concretas e levar à união com Deus.

Sagrada Escritura

“Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus.” — Filipenses 2,5
“Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado.” — 1 Coríntios 2,2

Catecismo da Igreja Católica

A meditação põe em ação o pensamento, a imaginação, a emoção e o desejo, para aprofundar as convicções de fé, suscitar a conversão do coração e fortalecer a vontade de seguir Cristo. — Cf. CIC, n. 2708

Como unir a oração vocal e a oração mental

Não é necessário concentrar simultaneamente a mesma intensidade em cada palavra da Ave-Maria e em todos os detalhes do mistério. A atenção pode mover-se de modo ordenado entre a fórmula vocal, a cena contemplada e a graça pedida. A aula sugere um método simples para cada dezena:

  1. nas três primeiras Ave-Marias, prestar atenção especial às palavras da oração;
  2. nas três seguintes, considerar mais diretamente o mistério anunciado;
  3. nas quatro últimas, pedir a graça ou virtude correspondente e formar uma resolução concreta.

Outro método é anunciar o mistério, representá-lo brevemente com a imaginação, refletir em um de seus aspectos e pedir, por intercessão de Nossa Senhora, a virtude que ele ensina. Na Anunciação, por exemplo, pode-se pedir humildade e obediência; na Agonia, conformidade à vontade de Deus; na Coroação de Espinhos, desprezo da vaidade; na Ressurreição, fé e esperança.

Esse método não é obrigatório. Cada fiel pode adotar uma forma prudente que o ajude a rezar com atenção e devoção. O importante é evitar tanto a recitação inteiramente mecânica quanto uma tensão excessiva que torne a oração impossível. A perseverança diária forma gradualmente o hábito do recolhimento.

Sagrada Escritura

“Orarei com o espírito, mas orarei também com a inteligência.” — 1 Coríntios 14,15

Catecismo da Igreja Católica

A oração vocal é elemento indispensável da vida cristã; deve nascer de uma fé pessoal, e a atenção do coração dá vida às palavras pronunciadas. — Cf. CIC, nn. 2700-2704

Os quinze mistérios tradicionais do Rosário

Mistérios gozosos

Tradicionalmente rezados às segundas e quintas-feiras, contemplam a vida oculta de Cristo:

  1. A Anunciação do anjo e a Encarnação do Verbo.
  2. A Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel.
  3. O Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.
  4. A Apresentação do Menino Jesus no Templo e a Purificação de Nossa Senhora.
  5. O Encontro do Menino Jesus no Templo entre os doutores.

Mistérios dolorosos

Tradicionalmente rezados às terças e sextas-feiras, contemplam a Paixão:

  1. A Agonia de Nosso Senhor no Horto das Oliveiras.
  2. A Flagelação de Nosso Senhor.
  3. A Coroação de espinhos.
  4. O Carregamento da Cruz para o Calvário.
  5. A Crucificação e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mistérios gloriosos

Tradicionalmente rezados às quartas-feiras, sábados e domingos, contemplam a glória de Cristo e de sua Mãe:

  1. A Ressurreição de Nosso Senhor.
  2. A Ascensão de Nosso Senhor aos Céus.
  3. A descida do Espírito Santo em Pentecostes.
  4. A Assunção de Nossa Senhora ao Céu.
  5. A Coroação de Maria Santíssima como Rainha do Céu e da terra.
A coroação de Maria Santíssima como Rainha do Céu e da terra
Quinto mistério glorioso: Maria é coroada Rainha do Céu e da terra. A contemplação conduz sempre à Santíssima Trindade e à glória de Cristo.

A questão dos mistérios luminosos

Em 2002, São João Paulo II propôs cinco mistérios luminosos, dedicados à vida pública de Cristo: o Batismo no Jordão, as Bodas de Caná, o anúncio do Reino e o convite à conversão, a Transfiguração e a instituição da Eucaristia.

A própria carta apostólica Rosarium Virginis Mariae apresenta essa inserção como uma proposta deixada à livre consideração das pessoas e comunidades. Portanto, é lícito rezar os luminosos e é igualmente lícito conservar a forma tradicional de quinze mistérios. Eles não constituem obrigação e não tornam incompleta a recitação tradicional.

A aula manifesta preferência pela forma tradicional. As razões apresentadas são a preservação da estrutura de 150 Ave-Marias, correspondente aos 150 salmos; a divisão ternária ligada à Santíssima Trindade, às três etapas da vida de Cristo e às três vias da vida espiritual; a ordem semanal consolidada; e a tradição que associa a organização dos quinze mistérios a São Domingos.

Naturalmente, qualquer episódio da vida de Cristo pode e deve ser objeto de meditação. A questão levantada não é se o Batismo, Caná, a Transfiguração ou a Eucaristia podem ser contemplados, mas se convém incorporá-los como uma quarta série fixa a uma estrutura secular. A prudência recordada na aula é que toda mudança em uma prática consolidada traz algum custo; por isso, seus frutos devem ser proporcionais às dificuldades criadas.

O juízo deve permanecer sereno e católico: ninguém deve censurar quem reza os luminosos, aprovados e recomendados por um santo pontífice, nem quem segue os quinze mistérios tradicionais. Em ambos os casos, o centro do Rosário é Cristo contemplado com Maria.

Sagrada Escritura

“Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.” — João 8,12

Magistério da Igreja

Para reforçar a densidade cristológica do Rosário, São João Paulo II considerou oportuna uma inserção que deixou à livre consideração de cada pessoa e comunidade. — Cf. São João Paulo II, Rosarium Virginis Mariae, n. 19
ConclusãoO Terço é uma escola simples e profunda de contemplação de Cristo com Maria.

A Ave-Maria começa com a Palavra de Deus, conduz ao nome de Jesus e termina confiando toda a nossa vida à intercessão da Mãe de Deus. O Rosário multiplica essa saudação não por repetição vazia, mas para criar um ritmo de oração no qual o coração contempla os mistérios da salvação.

Adquirir o hábito de rezar o Terço todos os dias exige esforço, mas produz grande fruto quando se unem a voz, a inteligência e a vontade. Anunciemos cada mistério, contemplemos o exemplo de Jesus e de Maria, peçamos a graça correspondente e procuremos imitá-los. Assim, a coroa de rosas oferecida à Virgem torna-se, para nós, um caminho de fé, conversão, perseverança e união com Cristo.

Sagrada Escritura

“Tudo o que fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por Ele graças a Deus Pai.” — Colossenses 3,17

Catecismo da Igreja Católica

A oração cristã procura sobretudo meditar os mistérios de Cristo; a oração mariana, especialmente o Rosário, participa dessa contemplação. — Cf. CIC, nn. 2708 e 971