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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria
Monsenhor André Jean Marie Hamon

Sobre a Vaidade

Décima Quinta Semana depois de Pentecostes

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon

Meditação para a Décima Quarta Quinta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre outro vício oposto à humildade, que é a vaidade; e veremos:

1.° O que é a vaidade;

2.° Como se vem a ser vaidoso.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nunca falarmos de nós, nem de tudo o que tenderia a granjear-nos a estima e o louvor;

2.° De termos só em vista Deus, o seu agrado, ou à sua glória, em todas as nossas obras, pensamentos, e palavras.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo a Timóteo:

“A Deus só honra e glória” – Soli Deo honor et gloria (1Tm 1, 17)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor repreendendo os escribas e fariseus por fazerem todas as suas obras para serem vistos e honrados dos homens (1). Exorta o povo e os seus discípulos a não os imitar, para que não suceda ver na outra vida as suas melhores obras sem recompensa (2). Admiremos a aversão que mostra à vaidade e vanglória, e demos-Lhe graças pelo desejo que tem de no-las fazer evitar.

PRIMEIRO PONTO

O que é a Vaidade?

A vaidade não é, como a soberba, um desejo desordenado da própria excelência; é um desejo desordenado das honras e dos louvores, ainda quando sabemos que os não merecemos. É tão grande a nossa miséria que, para os conseguir, chegamos até a mentir à nossa própria consciência. Queremos empregos, de que nos sentimos completamente indignos, e procuramos todos os meios de os obter, de ser vistos, louvados e aplaudidos. Praticamos para isto as maiores baixezas, fazendo alardo de tudo: alardo dos nossos vestidos, que queremos ricos e bem feitos; alardo do nosso adorno, a ponto de o olharmos como coisa grave, de lhe sacrificarmos muito tempo e dinheiro, de nos entristecermos e irritarmos, se a moda, o gosto, o capricho não são plenamente satisfeitos; alardo da mobília, que queremos esplendida; alardo da mesa, que queremos bem servida; alardo da nossa linguagem, procurando mostrar-nos espirituosos, distinguirmos por um modo de falar não vulgar; alardo dos nossos talentos, buscando mais a nossa glória que a de Deus; alardo do nosso porte e andar, em que se revelam a afetação e o desejo de ser gabado; alardo das nossas relações sociais: gostamos de ter trato com os grandes e ricos, envergonhamo-nos de o ter com os pequenos e pobres; alardo da nossa virtude: ocupamo-nos mais em diligenciar que nos julguem virtuosos, do que em se-lo na realidade; frequentamos a igreja, mas sem ali orarmos; os sacramentos, mas sem nos emendarmos; alardo, finalmente, da nossa mesma humildade; dizemos que somos um miserável e pecador, que não temos governo de vida, nem habilidade, nem talento, mas sentiríamos muito, que acreditassem o que fizemos; queremos somente insinuar que somos humildes, esperando que não nos tomarão pelo que somos; e na realidade, por falsos que sejam os louvores que nos dão, gostamos de os ouvir, importando-nos menos com o que somos em verdade e diante de Deus, do que com o que somos na aparência e na opinião do mundo. Ai! Estamos nós neste caso? Sondemos bem a nossa consciência.

SEGUNDO PONTO

Como se vem a ser Vaidoso

Tornamo-nos vaidoso:

1.° Por tudo o que acabamos de dizer;

2.° Louvando-nos a nós mesmo: falamos de nós e de tudo o que prevemos, que há de ser-nos proveitoso; divulgamos as nossas boas qualidades e obras, as mais das vezes exagerando-as e mentindo;

3.° Falando da nossa condição, do nosso nascimento, da nossa fortuna, das nossas dignidades: realçamos as menores circunstâncias que podem obter-nos a estima e o louvor;

4.° Elogiando os outros para que nos elogiem também;

5.° Encaminhando a conversação para as obras que julgamos ter feito com perfeição, e em que nos não falam: usamos de rodeios e finura para arrancar alguns louvores; rogamos aos que nos ouvem, que nos digam em que erramos; mostramo-nos descontentes com o que fizemos e até censuramos o que reputamos melhor, a fim de forçar os outros a falar em nosso favor;

6.° Confessando os nossos defeitos, quando não podemos encobri-los para que outros no-los não lancem em rosto; e exageramo-los, para que ao menos digam, que somos humildes.

Que nos diz a nossa consciência a respeito de tudo isto?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Omnia opera sua faciunt ut videantur ab hominibus (Mt 23, 5)

(2) Alioquin mercedem non habebitis apud Patrem vesrum (Mt 6, 1)

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 162-165)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.