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Monsenhor André Jean Marie Hamon

Sobre a Ambição

Décima Quinta Semana depois de Pentecostes

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon

Meditação para a Décima Quarta Sexta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre outro vício oposto à humildade, que é a ambição; e veremos:

1.° Quanto este vício é detestável;

2.º De quantos modos podemos tornar-nos ambiciosos.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos contentarmos com a posição que a Providência nos criou, sem buscarmos outra mais elevada;

2.° De resistirmos aos oferecimentos e instâncias que possam fazer-nos neste sentido, a menos que tenhamos provas evidentes de que o que nos oferecem é do agrado de Deus.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Tiago:

“Não queirais fazer-vos mestres, sabendo que vos expondes a um juízo mais severo” – Nolite… magistri fieri, scientes quod majus judicium sumitis (Zc 3, 1)

Meditação para o Dia

Adoremos o Espírito Santo proibindo-nos, na Sagrada Escritura, a aspiração ao poder e às dignidades, o desejo desordenado de nos elevarmos acima dos outros, isto é, a ambição (1). Demos-Lhe graças por tão útil proibição, e roguemos-Lhe que nos incite a cumpri-la.

PRIMEIRO PONTO

Quanto a Ambição é Detestável

“Este vício, diz o Espírito Santo, é abominação diante de Deus” – Quod hominibus altum est, abominatio est ante Deum (Lc 16, 15)

Os filhos de Zebedeu pedem para ser elevados acima dos outros Apóstolos e ter a primazia:

“Não sabeis o que pedis – Nescitis quid petatis (Mt 20, 22; Mc 10, 58), lhes responde Jesus Cristo. Os príncipes das gentes aspiram a dominar; mas os meus discípulos só são grandes à proporção que se humilham” – Quicumque voluerit inter vos major fieri, sit vester minister (Mt 20, 26)

No banquete das bodas, alguns ambiciosos escolhem os primeiros assentos na mesa. Não façais o mesmo, diz Ele a seus discípulos:

“Quando fordes convidados para algum banquete, tomai o ultimo lugar – Recumbe in novissimo loco (Lc 14, 10); porque todo aquele que se exalta, será humilhado, e todo aquele que se humilha, será exaltado”

E Jesus Cristo confirmou esta doutrina com o seu exemplo. Durante toda a sua vida prega a humildade, a vida obscura, a fuga das dignidades. Quando O querem aclamar rei, foge, como se fosse ameaçado de uma grande desgraça (2). Até aos trinta anos, vive desconhecido em uma cabana; durante a sua missão, vive pobre sem glória; na sua paixão, é coberto de opróbrios. Se aceita uma corôa, é uma corôa de espinhos; se recebe um cetro, é um cetro de ignomínia. Como ousarão apresentar-se ante o seu tribunal aqueles, cujos sentimentos e procedimento terão sido contrários a tais exemplos? Finalmente, o que nos ensina a fé, no-lo dita a razão. A ambição não faz senão desgraçados. Entre os seus escravos, que vemos? Muitos infelizes que esperam, muitos logrados que perderam as esperanças; muito poucos que se gozem, depois de ter, para chegar ao que são, sofrido mil desgostos sem ousar queixar-se, mil vexames e repulsas, cuja odiosidade lhes foi necessário dissimular; e agora que se elevaram em dignidade aguardam-os novos desgostos, novos desenganos. Falta-lhes sempre alguma coisa. A homenagem de Mardoqueu, de um só homem em todo o império, falta ao soberbo Aman, e é infeliz. A vinha de Nabote falta a Acabe, rei de Israel, e isso aflige-o; não descansa, enquanto não manda matar Nabote. E ainda assim, depois de alcançarem o que queriam, não deixam de ser desgraçados. Fui tudo o que se pode ser, dizia um imperador romano; e reconheço que tudo isto de nada serve para a felicidade (3).

SEGUNDO PONTO

De quantos modos podemos tornar-nos Ambiciosos

Tomamo-nos ambiciosos:

1.° Desejando ardentemente uma outra condição que a nossa, aspirando a honras, que não nos são devidas, ou exigindo as que o são;

2.° Tomando a ambição por conselheira dos nossos juízos na apreciação dos outros, a ponto de amá-los ou odiá-los, favorecei-os ou contrariá-los segundo se mostram favoráveis ou opostos aos nossos intuitos;

3.° Reputando felizes os que conseguem o que querem, e não cessando as nossas pretensões senão quando as não podemos realizar;

4.° Não julgando nenhum cargo superior ao nosso mérito, e aproveitando todas as ocasiões de obter dignidades e adiantamento;

5.º Olhando como principal motivo das nossas ações uma vã honra, que lisonjeia n orgulho;

6.º Aspirando, na ordem espiritual, a graças particulares e extraordinárias, a uma oração não vulgar, sem querermos contentar-nos com as luzes e graças que apraz a Deus dar-nos.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Noli quaerere a Domino ducatum, neque a rege cathedram honoris (Ecl 7, 4)

(2) Fugit in montem ipse solus (Jo 6, 15)

(3) Omnia fui, et nihil expedit

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 165-168)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.