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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria
Monsenhor André Jean Marie Hamon

Obrigação de nos Mortificarmos

Décima Sexta Semana depois de Pentecostes

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon

Meditação para o Décimo Quinta Sábado depois de Pentecostes

SUMARIO

Depois de termos meditado sobre a penitência, meditaremos sobre a mortificação, que é a sua consequência, e consideraremos:

1.° O preceito;

2.° A prática.

— Tomaremos a resolução:

1.° De combater em nós a paixão do gozo, o amor das nossas comodidades, e de nada fazermos por motivos tão pouco dignos de um discípulo de Jesus Crucificado;

2.° De sacrificarmos hoje a Nosso Senhor alguma coisa que nos agrade, ou alguma repugnância que sobrevier no cumprimento dos nossos deveres.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Nosso Senhor:

“Se alguém quer vir após de mim, negue-se a si mesmo” – Si quis vuit venire post me, abneget semetipsum (Mt 16, 24)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo declarando-nos no Evangelho que não quer no seu serviço essas almas frouxas, indolentes, efeminadas, que só vêem o prazer do momento e buscam a sua própria satisfação, membros delicados que não condizem com uma cabeça coroada de espinhos. Ele não reconhece por seus discípulos senão as almas fortes, generosas, intrépidas no sacrifício; que sabem violentar-se, levar a sua cruz e mortificar a sua índole, para a sujeitar ao dever. Ofereçamo-nos a Ele com estas generosas disposições.

PRIMEIRO PONTO

Preceito da Mortificação

De todos os pontos da moral cristã, nenhum é tantas vezes recomendado no Evangelho como o preceito da mortificação, isto é, de procurarmos, com as privações, o sofrimento e as violências contra nós mesmo, reprimir a nossa má índole e combater as suas tendências, para a manter sempre no dever: porque as palavras de Nosso Senhor que ordenam que renunciemos a tudo, a nós mesmo, que nos violentemos e tomemos a nossa cruz, significam que devemos mortificar-nos. A razão deste preceito, é porque sem mortificação não há virtude, nem razão, nem felicidade.

1.° Não há virtude, pois que para ser humilde, é preciso mortificar o nosso amor-próprio, a nossa vaidade; para ser manso, é preciso mortificar o nosso gênio, a nossa impaciência e ira; para ser obediente, é preciso mortificar a nossa vontade, os nossos caprichos, as nossas fantasias; para ser casto é preciso mortificar o amor do prazer, não contentar a carne, mas crucificá-la, e guardar-nos continuamente das suas seduções. Sucede o mesmo com todas as virtudes. Assim como não se endireita um membro torto senão ligando-o, assim também não se faz voltar a alma à retidão primitiva de nenhuma virtude, de onde o pecado a desviou, senão violentando-a.

2.° Sem a mortificação, não ha razão. É coisa humilhante ver quão pouco razoável é a razão sem a mortificação; faz-se consistir o prazer, como bruto, na bebida e comida; olham-se como um dos gozos da vida, usa-se deles com excesso até sentir incômodo e perder o tino. É razoável? Sem a mortificação, vive-se de caprichos e fantasias; obra-se a cada momento o que apraz, e não o que se deveria obrar; faz-se da noite dia, deitando-se tarde, e do dia noite, levantando-se mais tarde; desprezam-se os negócios, o cuidado da casa e da família, a vigilância dos filhos e criados, a ordem e a economia no governo doméstico, a proporção entre o que se possui e o que se gasta: é razoável? Sem a mortificação, não se busca senão a satisfação própria, antepondo o prazer ao dever, o gozo à consciência: é razoável? Sem a mortificação, nada se quer sofrer da parte dos outros, e quer-se que eles sofram tudo da nossa parte, que tolerem os nossos defeitos; sem que toleremos os seus; quer-se que cedam à nossa vontade, sem que cedamos jamais a sua; que se deixem escarnecer por nós, repreender, tratar com altivez, e que lhes seja vedado proceder do mesmo modo conosco? É razoável? Finalmente, cada vez que pecamos, é recusado mortificar-nos, porque não queremos privar-nos de coisa alguma, ou porque queremos gozar; ora todo o pecado é contrário à razão, porque a razão nos diz que obedeçamos a Deus, que nada manda que não seja justo e equitativo.

3.° Sem a mortificação, não há felicidade; não há felicidade no serviço de Deus, que retira as suas graças e consolações à medida que se busca o gozo na criatura e não nEle, e que se Lhe recusa o que nos pede; não há felicidade com o próximo, que afastamos com a disposição em que; estamos de não prestar nenhum serviço que incomode, com esse amor-próprio que procura o que agrada sem temer incomodar os outros, com esse gênio melindroso, com essa liberdade de falar que não sabe conter uma palavra ofensiva ou pouco benévola; finalmente, não há felicidade conosco:

a) Porque cada vez que se satisfaz a vontade desordenada, sofre-se a pena do remorso, que diz que se fez mal;

b) Porque todo aquele que tem afeições, indigna-se contra os que querem privá-lo do objeto que ele ama, aflige-se se é preciso, que ele próprio se prive dele, e assim é essencialmente desgraçado.

SEGUNDO PONTO

Prática da Mortificação

A prática desta virtude deve ser contínua, regulada pela prudência, acompanhada de amor e alegria.

1.º Contínua: porque, assim como aquele que navega um rio impetuoso, é levado pela corrente, se deixa um só instante de remar em sentido contrário, assim também será inevitavelmente arrastado ao mal aquele que deixar de lutar com energia contra a sua má propensão; porque a nossa índole corrompida incita-nos incessantemente ao mal, não duvidando perder-nos, contanto que ela fique contente. É uma escrava sempre pronta a rebelar-se, que só sabe fazer mal. Tudo nesta má índole é perigo, a vista, a língua, o gosto, e o tato espalhado por todo o corpo. Ora tantos inimigos conjurados nos perderão infalivelmente, se deixarmos um só dia de mortificá-los.

2.º A prática da mortificação deve ser; regulada pela prudência: seria um zelo indiscreto entregarmo-nos a excessivas mortificações, que arruinassem a saúde. A saúde é um depósito que Deus nos confiou; não temos direito de destruí-lo. Concedamos ao corpo o necessário, mas recusemos-lhe o que só é prazer e gozo.

3.° Finalmente, a mortificação deve ser acompanhada de amor e alegria. Deus não aceita senão os sacrifícios que o amor Lhe oferece com alegria (1); e o homem não praticaria a mortificação, se o amor lh’a não fizesse achar deliciosa. O amor, diz a Imitação,torna leve tudo o que é pesado, e doce o que é amargo (2). A alma que ama, sabe que os sofrimentos são a melhor prova de amor; e assim como tem imenso desejo de mostrar a Deus que o ama, assim também tem imenso desejo de padecer. Sal e que os sofrimentos são o alimento do amor, o meio mais seguro de nele progredir porque o coração se afeiçoa mais a Deus à proporção que mais se desafeiçoa de si próprio e das criaturas; e assim como tem imenso desejo de amar cada vez mais, assim também tem imenso desejo de padecer cada vez mais. Daí este brado de Santa Tereza:

Ou padecer ou morrer!

Daí nas almas, que amam verdadeiramente a Deus, o santo ardor com que se entregam à mortificação.

Examinemos a nossa consciência. Quais são as nossas disposições a respeito de um objeto tão importante para a salvação?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Hilarem datorem diligit Deus (Cor 9, 7)

(2) Amor… leve facit omne onerosum… et omne amarum dulce ae sapidum efficit (3 Imitação 5, 3)

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 190-194)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.