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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria
Monsenhor André Jean Marie Hamon

Mortificação do Próprio Espírito

Décima Sétima Semana depois de Pentecostes

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon
Religioso cumpre serenamente seu dever sob a luz do Espírito Santo, vencendo pensamentos inúteis

Meditação para a Décima Sexta Sexta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre a mortificação do próprio espírito, e consideraremos os seus três principais desvarios, que são:

1.° Os pensamentos inúteis;

2.° Os pensamentos estranhos;

3.° Os arrojos do próprio juízo.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos aplicarmos unicamente à obra que temos a fazer a cada momento, e a fazê-la com o fim de agradar a Deus;

2.° De expulsarmos os pensamentos inúteis ou estranhos, logo que os advirtamos;

3.° De desconfiarmos do nosso próprio juízo.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra da Imitação:

“Fazei o que fazeis” – Age quod agis

Meditação para o Dia

Adoremos o Espírito Santo habitando em nós para ser a norma das nossas obras, palavras e pensamentos (1). Tributemos toda a sorte de respeitos a este divino Espírito, que assim se digna guiar-nos, e roguemos-Lhe, que permita, que sigamos sempre a sua luz em vez das aberrações da nossa própria razão (2).

PRIMEIRO PONTO

Devemos guardar-nos dos Pensamentos Inúteis

1.º Eles causam a nossa desgraça: um mal que sentimos, uma afronta que recebemos, uma perda que experimentamos, nos teria dolorosamente impressionado uma vez; o pensamento deste mal, desta afronta, desta perda nos afligirá talvez cem vezes, e isto sem nenhum resultado útil;

2.° Os pensamentos inúteis são um dos maiores obstáculos à nossa santificação. Um dos sinais mais positivos da tibieza, diz São Boaventura, é não sentir o mal que fazem à alma os pensamentos inúteis. Cedemos ora ao desejo de saber tudo o que se passa; ora a devaneios, que conservam a alma em uma distração contínua, a enchem de mil pensamentos loucos, a ocupam de cem fatos e projetos quiméricos, ora finalmente a uma atividade excessiva, que se inquieta, se impacienta, se irrita, sem que nada se adiante. É um pequeno mundo, cujo bulício nos diverte e distrai, em que os pensamentos se sucedem atropeladamente, se embaraçam e nos perturbam, nos tomam inábeis para a oração, para a meditação, para as reflexões sobre nós mesmos, para as inspirações do Espírito Santo, para a prática das virtudes, que quer um espírito sossegado, um espírito atento e refletido. Assim os dias passam-se em distrações, sem refletir em Deus nem em nós mesmo; e muitas vezes o demônio aproveita-se disto para nos insinuar na alma, sob a aparência de pensamentos inúteis, mil pensamentos perigosos, em que a castidade, a caridade, todas as virtudes correm os maiores riscos.

Sem dúvida não depende de nós deixar de ter pensamentos inúteis, pois somos uma folha que o vento leva; mas o que depende de nós, é:

1.° Diminuir o mal, sendo menos leviano na conduta, menos curioso de saber o que nos não é preciso conhecer, fazendo menos leituras inúteis, sendo mais solícitos em vigiar os nossos sentidos e em restringir tantas conversações distrativas;

2.° Deter os pensamentos inúteis, logo que os advertirmos, dirigindo-os para Deus com algumas elevações de coração, algumas orações jaculatórias;

3.º Ter no dia certos momentos prefixos para entrarmos dentro em nós, e meditarmos, à imitação do Pai de família, que deixa de tempos a tempos os seus negócios, para cuidar dos negócios domésticos, e examinar se cada um cumpre o seu dever; depois do que vai continuar as suas ocupações.

SEGUNDO PONTO

Devemos guardar-nos dos Pensamentos Estranhos

Um outro abuso do nosso espírito, é não nos entregarmos inteiramente à ação presente, e preocuparmo-nos, ora das que a precederam, ora das que se lhe seguirão. Esquecemos o axioma do Sábio:

“Cada coisa tem seu tempo” – Omni negotio tempus est et opportunitas (Ecl 8, 6)

Esquecemos principalmente o exemplo de Jesus Cristo, que dizia, quando O incitavam a orar:

“Ainda não é chegada a minha hora” – Nondum venit hora mea (Jo 2, 4)

Não a antecipava, não a retardava, deixava-a chegar em paz. Estar todo entregue à obra presente, como se nada tivesse feito antes, como se nada tivesse a fazer depois, é grande sabedoria (3). Alcança-se com uma firme vontade de combater a preocupação, logo que a advertimos; mas ainda mais com uma intenção pura, livre de todo o apego e intuito humano.

“Quereis, diz o autor da Imitação, dominar-vos em paz entre as ocupações mais multíplices e mais sérias? Não olheis em todas as coisas senão à santíssima vontade de Deus, que é a própria ordem e sabedoria; e não tenhais apego a nenhuma das vossas ocupações. Estai sempre acima delas, nunca abaixo, sempre firme entre as coisas eternas e as coisas presentes, tendo estas debaixo de vossos pés, e os vossos olhos fixos naquelas” – Sis intimus, liber et tui ipsius potens, et sint omnia sub te, et tu non sub eis… in libertatem transiens filiorum Dei: qui stant super praesentia, et speculantur aeterna; qui transitoria sinistro intuentur oculo, et dextro caelestia (III Imitação 38, 1)

TERCEIRO PONTO

Devemos Guardar-nos dos Arrojos do Próprio Juízo

O próprio juízo é presunçoso: cuida que pode examinar tudo, julgar tudo, e faz uma e outra coisa com incrível leviandade. Imagina que não precisa de conselho; não o pede, e rejeita os que lhe dão, ou se os aceita, só é depois de discutir, dizendo sempre com São Tomé:

“Não ei de crer senão depois de ver” – Nisi videro… non credam (Jo 20, 25)

Considerando as suas imaginações como infalíveis argumentos e todos os seus pensamentos como oráculos, tem tal apego aos seus sentimentos, que nunca quer ceder; contesta, disputa incessantemente, até que se submetam ao que ele diz. Finalmente, argumenta, decide, sentencia a respeito de todas as coisas, como se fossem da sua competência. Ora quem não vê o abuso de um tal desvario, a soberba que é o seu princípio, e os abismos eternos que são a sua consequência?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Nescitis quia Spiritus Dei habitat in vobis? (1Cor 3, 16)

(2) Si spiritu vivimus, spiritu et ambulemus (Gl 5, 25)

(3) Age quod agis

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 211-214)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.