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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria
Monsenhor André Jean Marie Hamon

Mortificação da Imaginação

Décima Sétima Semana depois de Pentecostes

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon
Jesus resiste às tentações no deserto enquanto um cristão volta a imaginação para a cruz e a Escritura

Meditação para o Décimo Sexto Sábado depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre a mortificação da imaginação, e veremos:

1.° Que a nossa felicidade neste mundo depende do governo da nossa imaginação e da repressão de seus extravios;

2.° Que a nossa salvação eterna não depende disto menos.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De manhã, ao acordar, de ocuparmos o nosso espírito em santos pensamentos e o nosso coração em piedosos afetos, para evitar os extravios da imaginação;

2.° De nos recolhermos dentro em nós a diversas horas do dia, para ver se não cedemos à nossa imaginação, e renovar a resolução de a combater.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Espírito Santo:

“Não ponhais o vosso coração nas vossas imaginações” – Ne dederis in illis (phantasis) cor tuum (Ecl 34, 6)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo no deserto, levado pelo demônio ao pináculo do templo, e transportado dali a um alto monte, de onde o espírito tentador Lhe mostra todos os reinos da terra, figura sensível da nossa imaginação, que nos transporta num instante de uma à outra extremidade do mundo, nos preocupa com as imagens das coisas exteriores e tenta seduzir-nos com os seus fantasmas. Rebelde à razão, rebela-se contra o império que se quer exercer sobre ela: e ainda quando estamos mais resolvidos a combatê-la, foge-nos, e tem rodeado o mundo antes que advirtamos o que foi feito dela. Ó Jesus tentado no deserto! Ensinai-nos a resistir às tentações que a nossa imaginação nos suscita.

PRIMEIRO PONTO

A nossa felicidade neste mundo depende do governo da nossa imaginação e da repressão de seus extravios

Não há seres mais degradados que os homens de imaginação não reprimida: o passado, o presente, o futuro, tudo os desconsola.

O passado mostra-lhes uma afronta, um revés, uma contradição, que os afligiram outrora; a imaginação aproveita-se logo da aflição, que já não existia, aumenta-lh’as, exagera-lh’as, faz-Ih’as sentir cem vezes e sempre com uma nova veemência, mudando a dor mais ligeira em uma dor acerba, e tornando permanente o mal mais passageiro.

O presente desgosta-os: julgam que estariam melhor onde não estão; que outros, que o merecem menos, são mais felizes que eles. Nunca atentam no que fazem; a imaginação distrai-os disso, enche-os de pensamentos estranhos, de vãos fantasmas, de remorso e de vergonha da sua leviandade.

O futuro não os importuna menos, ora com a perspectiva de uma suposta felicidade, que eles buscam, e de que em breve desesperam; ora com o receio de dores e tribulações imaginárias, mas que os não fazem sofrer menos do que se fossem reais. Por isso são insuportáveis a si mesmos, sempre inquietos e tristes, descontentes e inconstantes. Depois a sua imaginação faz-lhes ver no espírito dos outros suspeitas, desprezos, ódios, más intenções que não existem neles, e afligem-se; inspira-lhes cuidados e receios infundados, e esmorecem. Para repelir o desgosto e a dor, queriam aplicar-se a algum exercício sério, a uma boa leitura; mas a imaginação distrai-os ainda, absorve o seu pensamento, e enfastiados abandonam o exercício.

Não sucede tudo isto conosco, e não temos sacrificado muitas vezes a nossa felicidade a vãos fantasmas?

SEGUNDO PONTO

A nossa salvação eterna depende do governo da nossa imaginação e da repressão de seus extravios

Com efeito, quem não sabe que a imaginação é o lugar onde todas as paixões nascem, crescem e se fortificam, inclinando-se o coração para o objeto por amor, ou desviando-se dele por ódio, segundo que a imaginação lh’o pinta como um bem ou como um mal? Quem não sabe que, quando se deixa que todos os objetos se imprimam na imaginação, eles não só tiram a devoção e o fervor da caridade, mas expõem a alma a uma próxima perdição? É desta excessiva liberdade, concedida à imaginação, que procedem os pensamentos perigosos, as tentações de todo o gênero. Se a sociedade é tão perigosa para os que a frequentam, não o é menos, e talvez o seja mais, para os que a deixam introduzir-se na sua imaginação: porque é ai mais sedutora; as cenas ai são mais variadas, e causam uma impressão mais imediata sobre os sentidos, inflamam o desejo, despertam a paixão que estava adormecida, aumentam e fortificam a que dominava. Jerônimo, no deserto, trazia na imaginação todas as pompas de Roma; Agostinho, no retiro, via todos os prazeres da terra puxando-o pela túnica e dizendo-lhe:

«Que! Abandonar-nos-ás tu para sempre? Nunca mais terás comércio conosco?»

Felizes esses grandes santos por terem combatido a sua imaginação!De outra sorte ter-se-iam perdido.

— Mas ainda que a imaginação não nos arrastasse a essas desordens, ao menos é certo que ela seria um obstáculo para adquirir toda a virtude. Não se pode esperar da imaginação nem o hábito da reflexão, que faz que nos estudemos, nos conheçamos e vigiemos a nós mesmos, nem a viva fé, que supõe uma alma refletida; nem a caridade, que supõe o esquecimento dos defeitos ou das faltas do próximo; nem a modéstia, que procede da paz e boa disposição do interior; nem a humildade, que fecha os olhos ao quadro de sua excelência traçado na imaginação pelo amor-próprio, nem o hábito de orar essencialmente oposto aos extravios da imaginação.

Entremos dentro em nós: não temos gostado de seguir os extravios da nossa imaginação e de a espraiar sobre mil fantasmas?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo IV, p. 214-217)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.