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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria
Monsenhor André Jean Marie Hamon

A Eucaristia, Glória e Tesouro do Cristão

Terceira Semana depois de Pentecostes

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon

Meditação para a Segunda-feira na oitava do Santíssimo Sacramento

SUMARIO

Consideraremos a Eucaristia:

1.° Como a glória do cristão;

2.° Como um tesouro.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos afeiçoarmos cada vez mais à sagrada Eucaristia, como ao mais precioso objeto que possamos amar cá na terra;

2.º De Lhe mostrarmos este amor, visitando-A muitas vezes com grande devoção, pensando com frequência nEla até no meio das nossas ocupações.

Conservaremos como ramalhete espiritual as palavras do Apóstolo:

“Cheguemo-nos confiadamente ao trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e de achar graça para sermos socorridos em tempo oportuno” – Adeamus cum fiducia ad thronum gratiae, ut misericordiam consequamur et gratiam inveniamus in auxilio opportuno (Hb 4, 16)

Meditação para o Dia

Adoremos o imenso amor de Jesus Cristo na instituição da Eucaristia. Este divino Salvador tem-nos amado em todos os momentos da Sua existência: a primeira lágrima que derramou, quando nasceu, foi uma lágrima de amor, assim como o Seu último suspiro, quando morreu, foi um suspiro de amor. De Belém ao Calvário, cada passo foi guiado pelo amor. Porém, em nenhuma parte o Seu amor por nós aparece melhor do que na instituição da Eucaristia. Tributemos-Lhe todo o nosso reconhecimento, louvor e amor; e supliquemos-Lhe que nos ajude a meditar o augusto mistério de Sua caridade.

PRIMEIRO PONTO

A Eucaristia é a Glória do Cristão

Moisés, encantado da honra, que Deus se tinha dignado fazer ao Seu povo, comunicando-Se-lhe por meio de Suas frequentes revelações, exclamava:

“Nenhuma outra nação há, por maior que seja, que tenha deuses tão próximos a si, como nós temos o nosso Deus próximo a nós” – Nec est alia natio tam grandis, quae habeat deos appropinquantes sibi, sicut Deus noster (Dt 4, 7)

Que teria ele então dito, se tivesse visto o que vemos na Eucaristia! Um Deus fazer-nos a honra de vir dos esplendores dos santos visitar-nos e acompanhar-nos na nossa peregrinação! Um Deus renovar cada dia essa descida e essa visita, e isto em todas as igrejas do mundo! Um Deus constituir-Se solitário e cativo em todos os tabernáculos, ficar de dia e de noite conosco para nos dar a todos os momentos um fácil acesso na Sua corte e a honra de nos atender! Um Deus converter as Suas igrejas em outros tantos paraísos, pois que é ali o mesmo Deus, que está no céu, cercado dos Seus anjos, e ali podemos juntar-nos a toda a corte celestial, que forma em redor dEle uma guarda invisível! Que glória para nós! E todavia é esta a menor glória, que recebemos da Eucaristia; uma glória muito maior é alimentar-nos com o corpo e sangue de um Deus, é incorpora-lO conosco e transformarmo-nos nEle! Que prodigiosa honra para o cristão! Um cristão é mais santo e mais excelentemente consagrado que as igrejas e os altares, que os cálices e os vasos sagrados. É elevado a uma grandeza, que excede todas as grandezas humanas, tão alta como o é o céu com relação à terra.

Ó cristão, respeita a tua grandeza, não te rebaixes com ações ou sentimentos vulgares, ainda menos com ações e sentimentos repreensíveis! Ó templo de Deus, ó cibório vivo da Eucaristia, não te manches com o que for impuro ou menos perfeito!

SEGUNDO PONTO

A Eucaristia é o Tesouro do Cristão

É um tesouro infinito de graças, a que podemos sempre recorrer, sem jamais o diminuir; onde achamos sempre com que pagar todas as nossas dívidas para com a justiça divina, com que prover a todas as nossas necessidades, às dos nossos parentes e amigos, às de todo o mundo; com que finalmente nos enriquecer para o céu e para a eternidade. O tesouro, que supre todos os tesouros, segundo a palavra de um concílio! (1). Bastantemente rico possuindo-O, o cristão nada mais tem a desejar nem no céu nem na terra (2): nEle acha a consolação se está aflito, a verdadeira glória se a deseja, a ciência se é ignorante, a fortaleza, se é fraco (3).

Tesouro que o põe nas circunstâncias de manter com o céu um comercio inefável e todo divino: de um lado, dá ao Pai celestial o seu adorável Filho pela oblação do augusto sacrifício; do outro, Deus dá-lhe esse mesmo Filho pela comunhão, com todas as graças, que Lhe apraz pedir-Lhe, com tanto que elas estejam na ordem da Providência.

Tesouro que não só está fora de nós, como os outros bens da terra, mas está em nós até se anexar a nós e ser um conosco.

Tesouro que se acha em toda a parte onde se achar um sacerdote com um pouco de pão e um pouco de vinho, de sorte que não há para o cristão nem exílio nem privações: não há exílio, pois que no Seu tesouro encontra o paraíso, que é a verdadeira pátria dos filhos de Deus; não há privações, pois que a sagrada Eucaristia lhe supre tudo.

Tesouro perdurável, porque até ao fim dos tempos haverá sacerdotes, que farão descer do céu este divino tesouro; gozá-lO-emos e seremos felizes.

Tesouro que é a nossa vida: a vida do nosso corpo, em que Ele deposita os germens da imortalidade; a vida da nossa alma, que Ele ilumina e santifica; a vida do nosso coração, que Ele inflama e abrasa. Jesus é a nossa vida, diz o Apóstolo (4):

“Não sou eu já que vivo, mas Jesus Cristo é que vive em mim” – Vivo jam non ego, vivit vero in me Christus (Gl 2, 20)

Oh! Quanta razão tinha, pois, o profeta para dizer: Em vós está a fonte da vida (5); fonte adorável, em que podemos beber tanto quanto quisermos, e apagar a nossa sede.

Tesouro finalmente, onde devem concentrar-se todos os nossos afetos, porque onde está o nosso tesouro, deve estar o nosso coração; onde está o corpo, devem juntar-se as águias.

É este o apreço que fazemos da sagrada Eucaristia?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Pro omnibus divitiis Christus abundat

(2) Quid mihi est in caelo? Et a te quid volui super terram? (Sl 72, 25)

(3) Omnia habemus in Christo

(4) Christus… vita vestra (Col 3, 4)

(5) Apud te est fons vitae (Sl 35, 10)

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 167-170)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.