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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria
Monsenhor André Jean Marie Hamon

Vida dos primeiros Cristãos

Semana de Pentecostes

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon

Meditação para a Terça-feira de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos a ação admirável do Espírito Santo sobre os primeiros Cristãos de Jerusalém, e veremos que fez deles modelos:

1.° De abnegação;

2.° De piedade;

3.° De caridade.

—Tomaremos depois a resolução:

1.° De praticarmos durante o dia algum ato de mortificação ou de abnegação;

2.° De guardarmos em todo o nosso porte uma grande modéstia, como meio de nos acostumarmos ao recolhimento de espírito;

3.° De darmos provas da mais perfeita caridade a todos aqueles, com quem tivermos relações.

O nosso ramalhete espiritual será o belo elogio, que o Espírito Santo fez dos primeiros cristãos:

“Da multidão dos crentes o coração era um e a alma uma” – Multitudinis credentium erat cor unum et anima una (At 4, 32)

Meditação para o Dia

Adoremos o Espírito Santo fazendo dos primeiros cristãos os modelos mais completos da santidade; louvemo-lO por esta obra prima do Seu poder e amor, rendamos-Lhe as nossas ações de graças.

PRIMEIRO PONTO

Abnegação dos primeiros Cristãos

O Espírito Santo, tendo enchido os seus corações, mostrou-lhes o nada de todas as coisas transitórias, e repetiu-lhes interiormente as palavras do Salvador:

“Quem não dá de mão a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 33). “Vendei tudo o que tendes e dai aos pobres, e depois vinde e segui-me” (Lc 18, 22)

Dóceis à voz interior, esses generosos cristãos renunciam logo a tudo. Renunciam os bens da terra: porque, diz o texto sagrado, eles vendiam as suas fazendas, os seus bens os seus campos ou casas, e traziam o preço do que vendiam e o punham aos pés dos Apostolas (At 2, 45; 4, 34ss). Renunciam as honras, a glória, a estimação dos homens: porque, na opinião pública, passavam por apóstatas de uma religião; certamente divina, por insensatos que se faziam adoradores de um homem crucificado e discípulos de pobres pescadores. Renunciam os seus amigos, os seus parentes, que choram a sua deserção e não querem ter já relações com eles. Renunciam a si mesmos e depõem as suas vontades nas mãos dos Apóstolos, aos quais obedecem com simplicidade de coração. Livres assim de todo o apego, entram em uma plena liberdade de espírito, em uma tranquilidade de alma inalterável, com cujo auxílio servem a Deus sem estorvo, O imploram com amor e O gostam com delícias.

Examinemos como estamos a respeito desta abnegação, e se o nosso coração tem ainda apego à terra.

SEGUNDO PONTO

Piedade dos primeiros Cristãos

Eles juntavam-se todos os dias no templo, diz o sagrado texto, e unidos num mesmo espírito, perseveravam na oração, na comunhão, que eles recebiam louvando e glorificando a Deus com regozijo e simplicidade de coração (At 2, 42ss). Admiremos o espírito de oração destes primeiros cristãos, que tinham compreendido bem a palavra do Jesus Cristo aos seus:

“Imporia orar sempre, e não cessar de o fazer” (Lc 18, 1)

E a de Deus a Abraão:

“Anda em minha presença e serás perfeito” (Gn 17, 1)

Porque não só eram recolhidos consigo, mas o eram como convinha: o seu recolhimento nada tinha de triste, nem de penoso e afetado; ao contrário, era acompanhado de uma grande simplicidade de coração e dessa santa alegria, que o amor divino traz com ele à alma (1). Belo modelo, que nos ensina a comungar muitas vezes, e a fazer preceder e acompanhar a comunhão do espírito de oração e de recolhimento: porque se a comunhão com o espírito de recolhimento é o alimento mais poderoso da piedade e da virtude, a comunhão junta a uma vida dissipada e sem espírito de oração seria causa da nossa perdição. Pensemos aqui seriamente sobre o nosso procedimento.

TERCEIRO PONTO

Caridade dos primeiros Cristãos

Estavam, diz o livro dos Atos, todos unidos, como uma só e mesma família, cuja caridade une todos os
membros. Entre eles não havia meu e teu: tudo o que cada um tinha, era possuído em comum por todos (2), e da multidão dos que criam o coração era um e a alma uma. Ainda que fossem um agregado de pessoas de diversos países, de diferentes condições, de gênios opostos, de interesses diversos, a caridade fazia de todos estes membros um só corpo, de todos estes corações um só coração, de todas estas almas uma só alma. Bem-aventurada e doce união! Paraíso antecipado, de que se poderia dizer com o Salmista:

“Como é bom e como é agradável que os irmãos estejam todos juntos!” – Ecce quam bonum et quam jucundum habitare fratres in unum! (Sl 132, 1)

Este belo espetáculo causava admiração àqueles que o presenciavam (3); convertia um grande número deles (4); e forçava esses mesmos, que se não convertiam, a louvá-los e a abençoá-los (5).

Aprendamos daqui a amar-nos uns aos outros, não com esse amor frio, que se limita a não odiar nem a querer mal, mas com esse amor sincero, que parte do coração, que quer todo o bem possível aos seus irmãos, e toma parte na sua tristeza como na sua alegria: com esse amor terno, que tem um modo de obrar todo cordial, e evita até as menores palavras, até os menores atos capazes de contristar; com esse amor generoso que, esquecendo-se de si para agradar aos outros, se acomoda os gênios, se presta a todos os sacrifícios e é atencioso com toda a gente.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Cum exultatione et simplicitate cordis collaudantes Deum (At 2, 46)

(2) Habebant omnia communia (At 2, 44)

(3) Magnificabat e os populus (At 5, 13)

(4) Magis augebatur credentium in Domino multitudo (At 5, 14)

(5) Habentes gratiam ad omnem plebem (At 2, 47)

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 122-125)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.