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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria
Monsenhor André Jean Marie Hamon

Vaidade da estima dos Homens

Décima Terceira Semana depois de Pentecostes

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon

Meditação para a Duodécima Quarta-feira depois de Pentecostes

Décima Quinta razão de sermos Humildes

SUMARIO

Meditaremos sobre uma décima quinta razão de sermos humildes; e é que, não o sendo, é correr atrás da coisa mais vã do mundo, que é a estima dos homens; e para bem nos convencermos disto, veremos quanto é vã esta estima:

1.° Nos seus princípios;

2.° Nos seus efeitos.

— Tomaremos depois a revolução:

1.° De só termos Deus em vista nas nossas obras e expulsarmos do nosso interior todo o pensamento de vaidade, que quiser intervir nas nossas intenções;

2.° De não ligarmos importância aos louvores ou amostras de estima, que nos derem.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Salmista:

“O Senhor conhece os pensamentos dos homens, e que eles são vãos” – Dominus scit cogitationes hominum quoniam vanae sunt (Sl 93, 11)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo recomendando-nos que nunca obremos com o fim de granjear a estima dos homens, mas sim de agradar a Deus (1). Agradeçamos-Lhe tão útil recomendação, e roguemos-Lhe que nos faça bem compreender a vaidade da estima dos homens.

PRIMEIRO PONTO

Quanto é vã nos seus princípios a estima dos homens

Quando nos louvam ou nos dão provas de estima, o amor-próprio diz-nos que é uma honra tributada ao nosso mérito, uma dívida que nos pagam; mas na realidade muitas vezes nada há mais falso. Ora é, da parte dos que nos elogiam, lisonja, pura civilidade, receio de ofender o nosso melindre que sabem que é grandíssimo, desejo de nos agradar, porque conhecem que gostamos dos louvores, e riem-se da nossa fraqueza na nossa ausência; ora é um incentivo concedido à nossa fraqueza, um amparo dado à nossa pusilanimidade, que sem isto cairia por terra. Outras vezes é a caridade, que não pensa mal, e vê tudo à boa parte: que honrando Jesus Cristo em nós, trata-nos atenciosamente, fala-nos com deferência, ama-nos cordialmente. Muitas vezes também são preconceitos favoráveis, uma amizade cega criada pela carne e sangue ou peles relações sociais. Então, como o espírito regula os seus juízos pelas inclinações do coração, tudo o que fazemos e dizemos parece digno de louvor, e vemos virtudes e riquezas espirituais onde Deus somente vê pobreza e misérias, talentos raros onde a verdade só acha um talento vulgaríssimo. Mais vezes ainda, para não dizer sempre, é a ignorância e a mentira. Louvam-nos, estimam-nos, porque nos julgam segundo aparências enganadoras, porque não nos conhecem. Oh! Quão raros seriam os louvores na terra, se o homem conhecesse bem aqueles a quem os dá! A ignorância dos que nos louvam pode desculpá-los; mas nós que sabemos o que somos, temos razão de nos gloriarmos? Se fossem dizer a um pobre reduzido à extrema miséria, coberto de andrajos e de úlceras, que ele era riquíssimo, que ninguém o igualava em formosura; que nada havia mais suntuoso que o seu trajo; e esse pobre gostasse de que assim lhe fadassem, dir-se-ia que tinha endoidecido; ora nós estamos no mesmo caso. Somos absolutamente pobres; não somos nada, não temos, não podemos nada, e todavia folgamos de que nos digam que somos ricos de méritos, de virtudes; e por mais falsos que sejam os louvores que nos dão, gostamos de os ouvir, não nos importando com o que somos em verdade e diante de Deus, mas somente com o que somos na aparência e opinião dos homens. Que loucura, que simplicidade é a nossa! Ah! Nós deveríamos reputar antes esses louvores e sinais de estima, como os reputavam os santos, uma injúria feita à extrema pobreza. Recebei os louvores como escárnios e afrontas, dizia São Francisco Xavier; os que me louvam, atormentam-me, dizia outro santo (2); e na verdade, se nos conhecêssemos, não pensaríamos de outro modo a nosso respeito.

SEGUNDO PONTO

Quanto é vã nos seus efeitos a estima dos homens

Louvem-me ou censurem-me; estimem-me ou desprezem-me; esqueçam-me ou desconheçam-me, que me importa? Fico por isso sendo menos do que sou? O juízo dos homens hoje engrandece-me: que lucrei com isto? Sou menos miserável? Não, por certo; não fiz mais do que juntar às minhas misérias a loucura de me gloriar de uma estima que não merecia; aos meus males um de mais, a minha soberba, que me inchou sem me engrandecer. Amanhã, pensando de diferente modo a meu respeito, os homens me julgarão desprezível, indigno de atenção; que terei eu perdido com isso? Apenas uma inútil diversão, uma pequena celebridade, perigosa para o meu amor-próprio e vaidade. Ai! Eu não preciso que me falem do bem que existe em mim; falo dele em demasia comigo mesmo. A opinião dos homens não é, pois, mais do que vento e fumo; nada nos dá nem tira; e tudo o que podem dizer de nós, seja em bem, seja em mal, não nos torna melhores nem piores. Por isso querer ser estimado dos homens é coisa tão vã, que não pode deixar de causar vergonha; ninguém há, que não se peje de que suspeitem que deseje que o louvem. Gostamos de que se saiba o bem que fazemos; mas obramos de modo que pareça que queremos ocultá-lo. Mostramos que nos custa ouvir os louvores, e rejeitamo-los, mas de maneira que pensem, que merecemos ainda maiores. Coisa singular! A estima dos homens é vã a ponto de nos envergonhar, e todavia causa-nos uma impressão agradável. Ah! É porque somos feitos para ser louvados e estimados de Deus na eternidade; mas isto somente se realizará se nos curarmos do desejo da estima dos homens da terra.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Attendite ne justitiam vestram faciatis coram hominibus, ut videamini ab eis (Mt 6, 1)

(2) Qui me laudant, me flagellante

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 114-117)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.