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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria
Monsenhor André Jean Marie Hamon

Sua vida mortificada no seio de sua Mãe

Terceira Semana do Advento

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon

Meditação para a Sexta-feira
da 3ª Semana do Advento

Sumário

Meditaremos a vida mortificada que teve o Verbo Encarnado, no seio de Sua Mãe; e admiraremos como neste estado mortificou:

1.° Os seus sentidos;

2.° A sua vontade;

3.° A sua liberdade.

– Tomaremos depois a resolução:

1.° De mortificar os nossos sentidos, principalmente os olhos e a língua, até mesmo nas coisas permitidas, a fim de nos acostumarmos a mortificá-los nas coisas proibidas;

2.° De viver com regra e na obediência, sem jamais ceder ao capricho.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo:

Jesus Cristo nunca buscou a sua própria satisfação – Christus non sibi placuit (Rm 15, 3)

Meditação para o Dia

Adoremos o Verbo Encarnado no seio de Maria, sujeitando-Se nele, durante nove meses, a uma mortificação universal, e começando a vida de mártir to e de sacrifício, que deve continuar durante todo o tempo do seu trânsito na terra. Tudo nEle é mortificado, os sentidos, a vontade, a liberdade. Abençoemos este grande exemplo, que Ele nos dá, e supliquemos-Lhe a graça de nos aproveitarmos dele.

PRIMEIRO PONTO

O Verbo Encarnado no seio de Maria mortifica os Seus sentidos

Com efeito, nem os Seus olhos gozam da luz nem a Sua língua do uso da palavra, nem os Seus membros da faculdade de se mover. Passa nove meses na mais profunda obscuridade, molestado em todo o Seu corpo. As outras crianças, então privadas de razão, não sentem o incômodo desta posição; mas com uma razão perfeitamente desenvolvida, ver-se na clausura, no cativeiro e nas trevas, que cruel mortificação! Que privação universal! A estes sofrimentos dos sentidos exteriores acresciam os dos sentidos interiores, do espírito e da imaginação, que conservavam incessantemente presentes ao Seu pensamento a Sua morte tão ignominiosa como dolorosa, a perdição eterna de tantas almas que recusariam aceitar a salvação que vinha trazer-lhes, as dores futuras de Sua Mãe, os tormentos dos mártires, e as lágrimas e perseguições de todos os santos. Todas estas dores carregavam a Sua alma dum peso imenso, que Ele suportava com resignação.

Que grande coração nesse pequeno corpo! Que excesso de caridade em um Deus para com a Sua criatura! Mas também que exemplo para nós! Jesus não está um instante sem padecer por nosso amor, e nós nada queremos padecer pelo Seu serviço. Mortifica a Sua vista, e nós queremos conceder tudo à nossa; crucifica os Seus sentidos, e nós queremos lisonjeá-los; sofre extremas amarguras interiores, e nós indignamo-nos contra as nossas. Envergonhemo-nos da nossa covardia, que nada quer padecer por um Deus que tanto padeceu por nós.

SEGUNDO PONTO

O Verbo Encarnado no seio de Maria mortifica a Sua vontade

Jesus reside nove meses no seio de Maria por obediência a Seu Pai; não mede o tempo segundo os Seus desejos, mas conforma os Seus desejos com os mandatos de Seu Pai, com escrupulosa exatidão. Sabedoria encarnada, Ele tinha direito de dirigir e regular por Si mesmo as Suas ações; mas renuncia ao uso deste direito, e deixa a Sua vontade à disposição da obediência. Obedece não só aos mandatos de Seu Pai, mas aos de Maria, que O leva onde quer; aos do imperador romano, de São José, de todos aqueles a que Maria estava sujeita. E o que faz no princípio de Sua vida, o fará até ao fim (1); e depois de ter tido uma vida toda de obediência, morrerá por obediência (2).

Aprendamos daqui a nunca tomar a nossa vontade por norma do nosso procedimento e de nossas determinações; mas a não querer, como Jesus Cristo, senão o que Deus quer (3), e a querê-lo fortemente e do fundo do coração, inteiramente e sem reserva. Aprendamos daqui a regular o emprego do nosso tempo, segundo o beneplácito de Deus, a fazer cada coisa oportunamente, não dando aos negócios o tempo da oração, às diversões o tempo do trabalho, à conversação o tempo de nos calarmos.

Ó Senhor, Vós que sois Deus, renunciais a Vossa vontade, e eu, bicho da terra, quero fazer a minha: o Vosso prazer é obedecer, e eu desejo mandar. Que cegueira é a minha!

TERCEIRO PONTO

O Verbo Encarnado no seio de Maria mortifica a Sua liberdade

O Verbo Encarnado não só renuncia a Sua própria vontade, mas também privando-Se até do poder, toma todas as fraquezas da infância e sofre por escolha todas as enfermidades que as crianças sofrem por necessidade. Ele que com uma só palavra criou tudo o que existe, torna-Se mudo sem poder pronunciar uma palavra para nos ensinar a calar-nos, a não murmurar nem queixar nos nos incômodos; a não altercar com os outros, como se quiséssemos sempre prevalecer a ceder modestamente, como se nada tivéssemos que replicar; a refrear a nossa língua, quando a paixão está excitada como se dela tivéssemos perdido o uso. Ele que move tudo, não pode fazer outro movimento senão o das crianças no seio de sua mãe, para nos ensinar a conservar-nos na inação, quando as enfermidades corporais a ela nos reduzem, a reprimir os movimentos da natureza corrompida, para não obrar senão segundo os impulsos da obediência e da graça. Finalmente, Ele que, no seio de Seu Pai, é soberanamente independente, depende de Maria, pelo que respeita à sua vida, ao seu alimento, à sua conservação; não tem o ser e a vida humana senão por dependência de Maria; não tem outro alimento senão o sangue de seu coração, até que chupe o leite de seus peitos; e a sua conservação depende unicamente dela; ele não pôde defender por si mesmo o seu corpinho tão fraco, tão delicado; a menor imprudência de sua Mãe pode matá-lO.

Ó Deus, tão sujeito, tão falto de forças, tão dependente, ensinai-me a reprimir este espírito de independência, filho de minha soberba, esse mau uso da língua, que não sabe calar-se quando convêm, e esse desejo de fazer o que me apraz!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Quae placita sunt ei, facio semper (Jo 8, 29)

(2) Factus obediens usque ad mortem (Fl 2, 8)

(3) Non mea volutnas, sed tua fiat (Lc 21, 24)

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 89-93)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.