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Monsenhor André Jean Marie Hamon

Santos desejos do Céu

Segunda Semana da Quaresma

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon

Meditação para a Quarta-feira da Segunda Semana da Quaresma

SUMARIO

Consideraremos na nossa meditação:

1.° Que o mistério da transfiguração deve incutir-nos santos desejos do céu;

2.° Que estes santos desejos são muito úteis à alma.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos desapegarmos da terra, e de não amarmos senão as coisas do céu;

2.° De concebermos multas vezes santos desejos por forma de orações jaculatórias.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Bernardo:

“Quão formosa és, pátria minha! Quão formosa és!” – Quam pulchra es, patria mea, quam pulchra es!

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor Jesus Cristo, revelando o esplendor da Sua glória no Tabor, para nos desapegar da terra e nos fazer desejar o céu, mostrando-nos quanto nEle se é feliz (1). A este espetáculo, elevemos para cima as nossas esperanças, e enchamo-nos de grandes desejos do céu. Nada mais santificante.

PRIMEIRO PONTO

A Transfiguração de Nosso Senhor ensina-nos a desejar o céu

Com efeito, se alguns raios da glória, vistos um instante e como que de passagem, encheram os Apóstolos de tão grande alegria que Pedro, extasiado, não cabendo em si de contente, exclama:

“Senhor, bom é que estejamos aqui; se quereis, façamos aqui três tabernáculos, um para vós, outro para Moisés, e outro para Elias” (Mt 17, 4)

Que será, ó Jesus, vendo-Vos face a face em todo o brilho de Vossa majestade, em todo o esplendor da Vossa glória, e isto não só alguns, instantes fugitivos, como no Tabor, mas sempre, mas eternamente? Porque eternamente contemplaremos a formosura do Vosso rosto; eternamente gozaremos da Vossa deliciosa companhia, não já somente com Moisés e Elias, mas com todos os patriarcas, todos os profetas, todos os Apóstolos, todos os mártires, confessores e virgens; não já somente era uma tenda levantada por mão do homem, mas na própria cidade de Deus. Oh! Que doce e gloriosa esperança! Oh! Que belo destino! Era o que consolava Jó e o fazia exultar no meio das suas dores:

“Eu a sei, exclamava ele, que o meu Redentor vive, e que no derradeiro dia o verei na minha própria carne, o contemplarei com os meus olhos, e esta esperança faz a alegria do meu coração” (Jó 19, 25-27)

Era o que obrigava o Apóstolo a suspirar tão vivamente pela dissolução do seu corpo (2), e inspirava a Santa Tereza estes ardentes desejos de morrer:

“Ó vida demasiadamente longa! – exclamava ela; ó morte demasiadamente tardia! Quão dilatado é o meu desterro!”

Era o que incitava São Gregório de Nazianzeno a dizer:

«Quando considero quanto se ganha morrendo, e quão pouco se perde perdendo a vida, não posso conter os meus veementes desejos; e digo a Deus: Quando será, Senhor, que me tirareis deste mundo para me introduzir na minha pátria?» (Orat. X, in Sacerd.)

Tais devem ser também os sentimentos de todo o cristão.

“Porque aquele, diz Santo Agostinho, que não geme cá na terra como peregrino, não se alegrará no céu como cidadão” – Quid non gemit ut peregrinus, non gaudebit ut cives

O verdadeiro cristão, diz ele em outra parte, vive com paciência, e morre com gosto; a vida é para ele uma cruz, a morte um gozo (3).

São estas as nossas disposições? Não amamos mais o exílio que a pátria, a terra que o céu, e não julgamos nós uma felicidade sermos por muito tempo peregrinos, e entrarmos o mais tarde possível no céu? Oh! Que incoerência é a nossa! Dizemos a Deus: «Venha a nós o vosso reino», e agrada-nos o nosso desterro, e buscamos estabelecer-nos nele, como se tivéssemos de viver sempre nele! Caminhamos para a felicidade, e não temos pressa de a alcançar; navegamos no meio do mar, e não aspiramos ao porto!

SEGUNDO PONTO

Quão úteis são à alma os santos desejos do céu

1.° Consolam-a em todas as penalidades da vida e enfermidades do corpo. Com efeito, que são todas estas penalidades para uma alma abrasada nos santos desejos do céu, em que espera ser indenizada delas magnificamente? Diz consigo:

Padeço, é verdade; mas que é isto em comparação da felicidade que me espera, em comparação da glória que gozarei, quando o meu corpo, transformado na semelhança do corpo do Salvador, for revestido da luz, resplandecente como o sol, impassível, imortal?

Abençoado seja o padecimento que me alcançou tanta felicidade!

2.° Os santos desejos do céu desafeiçoam de tudo o que passa: a alma, cheia destas grandes esperanças, vê o mundo todo infinitamente abaixo dela, já não aspira senão aos bens eternos do céu, e diz como Santo Inácio:

“Quão desprezível me parece a terra, quando olho para o céu!” – Quam sordet tellus, cum caelum aspicio

3.° Estes santos desejos enchem a alma de um santo zelo pela salvação. Ela diz consigo, como Santo Agostinho:

“Se o trabalho mete medo, a recompensa anima” – Si labor terret, merces invitet

Quando se pensa que a menor dor cristãmente suportada, o menor ato de virtude, o menor sacrifício, a menor oração bem feita, há de ter em recompensa um peso imenso de eterna glória, nada há que custe, e entregamo-nos com alegria a tudo o que tende à salvação. Ó, de quantas graças nos privamos nós com esse esquecimento do céu, que nos ó tão habitual! Reconheçamo-lo e elevemos os nossos corações para o alto. Sursum corda!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Bonum est nons hic esse (Mt 17, 4)

(2) Desiderium havens dissolve et esse cum Christo (Fl 1, 23)

(3) Justus patienter vivit et delectabiliter moritur

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 121-125)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.