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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria
Monsenhor André Jean Marie Hamon

Salvação das Almas

Quarta Semana depois de Pentecostes

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon

Evangelho de Nosso Senhora Jesus Cristo segundo São Lucas 15, 1-10

1Aproximavam-se dele todos os cobradores de impostos e pecadores para o ouvirem. 2Mas os fariseus e os doutores da Lei murmuravam entre si, dizendo: «Este acolhe os pecadores e come com eles.»

3Jesus propôs-lhes, então, esta parábola:

4«Qual é o homem dentre vós que, possuindo cem ovelhas e tendo perdido uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai à procura da que se tinha perdido, até a encontrar? 5Ao encontrá-la, põe-na alegremente aos ombros 6e, ao chegar a casa, convoca os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida.’

7Digo-vos Eu: Haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão.»

8«Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perde uma, não acende a candeia, não varre a casa e não procura cuidadosamente até a encontrar? 9E, ao encontrá-la, convoca as amigas e vizinhas e diz: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida.’

10Digo-vos: Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte.»

Meditação para o 3º Domingo depois do Pentecostes

SUMARIO

Interromperemos as nossas meditações sobre o santo sacrifício, para meditar o Evangelho do domingo; e veremos:

1.° Como, de um lado, as almas se perdem;

2.° Como, do outro lado, Jesus Cristo procura salvá-las.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De evitarmos com grande cuidado as menores culpas, porque conduzem às maiores, e de rompermos todas as nossas afeições, porque arriscam a nossa salvação;

2.° De obedecermos fielmente aos atrativos da graça, que nos chama para uma vida mais perfeita.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do nosso Evangelho:

“Haverá júbilo no céu por um pecador que fizer penitência” – Gaudium erit in caelo super uno peccatore paenitentiam agente (Lc 15, 7)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo mostrando-Se-nos, no Evangelho deste dia, sob a dupla alegoria de um pastor, que vai em busca da ovelha desgarrada, e achando-a, põe-a aos seus ombros, e a leva ao aprisco; e de uma pessoa que, tendo perdido uma dracma, a busca até que a acha. Agradeçamos-Lhe estas duas alegorias, que fazem tão bem sobressair a Sua misericórdia e o ardente desejo, que tem de nos salvar.

PRIMEIRO PONTO

Como se perdem as almas

Vemo-lo na ovelha desgarrada, de que fala o nosso Evangelho:

1.° Esta ovelha busca um pouco de erva, de que gosta, e achando-a, demora-se com ela; entretanto, o pastor e o rebanho vão para outro lado, e ei-la desgarrada. É assim, que a perdição de uma alma começa por uma culpa leve, quase involuntária. É o primeiro passo para deixar Deus;

2.° A ovelha vê, que se separou do pastor; não lhe mete medo esta separação, nem o perigo a que se expõe; fica onde está. É assim que depois das nossas culpas, que apenas olhamos como tais, não nos arrependemos; confessamo-las sem dor e sem firme propósito de não tornar a cometê-las; ficamos como estamos;

3.° A ovelha, pouco prudente e sem guia, vai lançar-se nos abrolhos e espinhos, em que se emaranha, e de onde só se tira dificilmente e raras vezes: é a imagem dessas afeições, que prendem o coração e o levam a culpas maiores;

4.° Finalmente a ovelha, debatendo-se entre esses abrolhos, que a laceram, cai em um fosso, de onde não sai mais. É a figura dessa cegueira espiritual, estado deplorável, noite horrenda, onde não se vê já, que desgraça é perder a amizade de Deus, as Suas graças e recompensas; sacrificar o céu, expôr-se ao inferno por um interesse transitório, por um prazer frívolo, uma honra fútil, uma vã satisfação.

Se quisermos evitar tamanha desgraça, fujamos das menores culpas, arrependamo-nos, logo que a consciência no-las mostrar, e precatemo-nos das afeições e das menores culpas que conduzem às maiores. Pensemos aqui seriamente sobre a nossa conduta.

SEGUNDO PONTO

Como procura Jesus Cristo salvar as almas

É tal o amor de Jesus Cristo pelas almas que O deixaram, que, quando voltam para Ele, está sempre pronto a perdoar-lhes, e se reputa ofendido com a falta de confiança na Sua misericórdia. Se não voltam para Ele, persegue-as com as Suas graças interiores e exteriores até que voltem. É o que Ele nos dá a entender por esse pastor, que deixa as suas noventa o nove ovelhas, e vai buscar no deserto a ovelha desgarrada. Ele não cessa de a buscar senão depois de a ter achado. E logo que a acha, ó terno amor de Jesus Cristo pelos pobres pecadores! Longe de a castigar da sua infidelidade, afaga-a, põe-a aos ombros, leva-a ao aprisco, e festeja a sua volta: isto é, que pela unção da Sua graça, a atrai, a conduz, e lhe faz gozar tanta doçura na sua volta, que ela é antes levada do que caminha. Finalmente, tornando a entrar no aprisco, as delícias da inocência recuperada, da amizade de Deus recuperada, da esperança de uma feliz eternidade, fazem do dia da sua reconciliação um dia de festa.

A mesma verdade nos é representada pela dracma perdida do nosso Evangelho. Esta dracma, esta pedra preciosa, esta pérola inestimável, são as nossas almas, a que São Cipriano chama pretiosa monilia Cristi, e que Deus destina ao adorno do Seu paraíso. Para a salvar, Jesus Cristo tem revolvido o mundo; envia sacerdotes em sua busca por toda a parte, e quando recupera alguma, há um grande júbilo no céu! Ó inestimável preço das almas! Ditosos os sacerdotes empregados em ganhá-las para Jesus Cristo! Lembremo-nos de tudo o que Jesus Cristo fez para nos salvar. Demos-Lhe graças pelo passado, e proponhamo-nos aproveitar-nos melhor das Suas graças para o futuro,

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 187-190)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.