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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria
Monsenhor André Jean Marie Hamon

Recorrer a Deus nas aflições

Décima Nona Semana depois de Pentecostes

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon
Cristão recorre a Deus em meio às aflições e recebe de Cristo consolo e esperança

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 9, 1-7

1Depois disto, subiu para o barco, atravessou o mar e foi para a sua cidade. 2Apresentaram-lhe um paralítico, deitado num catre. Vendo Jesus a fé deles, disse ao paralítico: «Filho, tem confiança, os teus pecados estão perdoados.» 3Alguns doutores da Lei disseram consigo: «Este homem blasfema.»

4Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: «Porque alimentais esses maus pensamentos nos vossos corações? 5Que é mais fácil dizer: ‘Os teus pecados te são perdoados’, ou: ‘Levanta-te e anda’? 6Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem, na terra, poder para perdoar pecados – disse Ele ao paralítico: ‘Levanta-te, toma o teu catre e vai para tua casa.»

7E ele, levantando-se, foi para sua casa. 8Ao ver isto, a multidão ficou dominada pelo temor e glorificou a Deus, por ter dado tal poder aos homens.

Meditação para o 18º Domingo depois do Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o Evangelho do dia, e aprenderemos:

1.º A recorrer a Deus em todas as penalidades da vida;

2.° A preocupar-nos mais do eterno destino da nossa alma que de todos os males temporais.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De fazermos Nosso Senhor confidente de nossas aflições, e de lh’as declararmos;

2.° De antepormos os nossos interesses eternos a tudo o que somente respeita à vida presente.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Evangelho:

“Senhor, para quem havemos nós de ir? Vós tendes palavras, de vida eterna” – Domine, ad quem ibimus? Verba vitae aeternae habes (Jo 6, 69)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor Jesus Cristo acolhendo com bondade o paralítico do nosso Evangelho e os que lh’o apresentam. Quando se recorre a Ele com confiança, tem-se sempre a certeza de ser bem recebido. Como Ele é bom! Quanto digno é de todo o nosso culto! Ele é o único e verdadeiro amigo das almas! Prostremo-nos à seus pés, e expandamos no seu coração toda a nossa gratidão.

PRIMEIRO PONTO

Devemos recorrer a Deus em todas as penalidades da vida

É o que nos ensina o nosso Evangelho. Logo que Nosso Senhor chegou à sua cidade, isto é, a Cafarnaum, onde era a sua residência mais ordinária, trazem-Lhe um paralítico que jazia no seu leito. A casa e todas as suas entradas estão cheias de gente; e para lh’O apresentar, não acham outro meio senão destelhar a casa, fazerem uma abertura, e arrearam o leito em que estava deitado o enfermo. O exemplo de tão grande fé ensina-nos a recorrer a Deus em todas as penalidades da vida. É porque, efetivamente, Ele é o único que dispõe dos acontecimentos que nos afligem, que nos consola, e nos recompensa. Dispõe deles: porque nada sucede neste mundo senão por vontade ou permissão da Providência, que é sempre cheia de amor e benevolência. Se fere, sara a ferida; se dá o golpe, a sua mão cura (1). Porque pois, em vez de recorrer aos homens, que nada podem, não recorrer a Deus, que pode tudo?

Demais, só é Ele que consola de todos os males. Os homens, como o dizia Jó (2), não são senão consoladores importunos; declaramos-lhe as nossas aflições, e a maior parte não se compadecem delas, ou não sabem dizer-nos palavras de fé, que seriam as únicas que poderiam consolar-nos. Declaremos às nossas tribulações a Deus em uma fervorosa oração ou aos pés do crucifixo, ou em uma visita ao Santíssimo Sacramento, e voltaremos de lá melhores, confortados, consolados.

Finalmente, só Deus nos recompensa dos males cristãmente suportados. Se declaramos as nossas aflições às criaturas, perdemos muitas vezes o seu mérito; o nosso amor-próprio leva-nos a fazer com que nos lastimem e admirem; se delas falamos a nós mesmos, exasperamo-nos, lançamos as culpas a Deus e aos homens, e somente daí tiramos maior tristeza, descontentamento e pecado. Ao contrário, se confessamos as nossas penas a Deus, santificamo-las com a resignação, com a oração, com a esperança dos bens eternos e com a certeza de que a nossa esperança não ficará frustrada.

Reconheçamos diante de Deus o dano que temos causado a nós mesmos, referindo todas as nossas dores e tribulações às criaturas.

SEGUNDO PONTO

O eterno destino da nossa alma deve preocupar-nos mais que todos os males temporais

É o que Nosso Senhor nos ensina no Evangelho deste dia. Os judeus apresentam-lhe o paralítico pedindo-Lhe que cure o seu corpo enfermo. Nosso Senhor responde-lhes, curando-lhe a alma ainda mais enferma. Ilumina-a, comove-a, penetra-a de uma sincera contrição, de um verdadeiro amor de Deus, e diz-lhe:

“Filho, tem confiança, perdoados te são os teus pecados”

A cura do corpo virá, mas será em segundo lugar. O essencial deve antepor-se ao acessório; o céu à terra; o bem eterno ao bem temporal; a alma ao corpo. É assim, que apreciamos as coisas?

O santo pároco d’Ars acendeu um dia por engano a sua alampada com uma nota de banco. A sua criada grita e aflige-se.

«Que pouca fé tens! Lhe diz o santo sacerdote. Se me tivesses visto cometer um pecado venial, nada terias dito, e por um pouco de dinheiro perdido, soltas esses gritos!»

Quantos cristãos há no mundo, que se importam menos com a salvação do que com o seu dinheiro; que temem menos um pecado do que a perda de sua fortuna, de sua honra e reputação! Examinemos se não somos deste número.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ipse vulnerat et medetur, percutit et manus ejus sanabunt (Jó 5, 18)

(2) Consolatores onerosi omnes vos estis (Jó 16, 2)

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 40-43)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.