Meditação para a Nona Quinta-feira depois de Pentecostes
SUMARIO
Meditaremos sobre as visitas que fazemos uns aos outros na sociedade, e estudaremos os seus três principais perigos:
1.° As intenções raras vezes são cristãs;
2.° Os pecados nelas são frequentes;
3.° Corre-se o perigo de perder nelas todo o espírito cristão.
— Tomaremos depois a resolução:
1.° De não fazermos senão as visitas que exige o decoro; de as abreviarmos quanto possível, e de pormos a nossa felicidade na vida doméstica;
2.° De nos acautelarmos, nas visitas indispensáveis, dos perigos que provêm de frequentar a sociedade.
O nosso ramalhete espiritual será a palavra de um antigo filósofo:
“Todas as vezes que estive entre os homens, voltei menos homem” – Quoties inter homines fui, minor homo redii (Sêneca)
Meditação para o Dia
Adoremos Jesus Cristo nas visitas que fez durante a sua vida. Fez mui poucas, e fê-las de um santíssimo modo, para nos alcançar a graça de santificarmos as nossas, e de evitarmos os perigos que nelas se encontram. Que vantagem para nós achar nas ações de um Deus um modelo das nossas e uma graça para as fazer bem! Espraiemo-nos em louvores e agradecimento aos pés deste divino Salvador.
PRIMEIRO PONTO
As intenções nas visitas raras vezes são Cristãs
Intenção cristã é aquela que tem por objeto a glória e vontade de Deus. Ora consultemos os fatos: não é verdade que as mais das vezes fazemos estas visitas com uma intenção diferente? Fazemo-las com intuitos puramente humanos e naturais; já para distrair-nos e ter um agradável passatempo, para manter as relações sociais, satisfazer a curiosidade, saber novidades; já para dar ocasião a que digam que somos amáveis e tratáveis, sobressair pelo espírito, adquirir renome ou conservar o que já temos, para granjear amigos que contribuam para o nosso adiantamento, para adquirir fortuna ou um emprego; já para conservar algumas amizades perigosas ou satisfazer alguma paixão.
Não fazemos muitas vezes as nossas visitas com tais intenções, que as tornam culpáveis ou perigosas, ou ao menos dão ocasião a que percamos um tempo necessário para a salvação?
SEGUNDO PONTO
Os pecados são frequentes nas visitas
1.° Peca-se nelas por palavras: ora se murmura e se moteja dos defeitos do próximo, se devassa a sua vida, se arruína a sua reputação; ora se proferem discursos mundanos, palavras difamantes, a pretexto de recreação. Outras vezes não se modera a língua, interrompe-se o que os outros dizem, ou guarda-se uma taciturnidade que lhes desagrada; mostra-se um amor-próprio afetado, um ar de importância; julgam-se todas as coisas e pessoas sem apelação, sem admitir a menor contradição. Realiza-se finalmente a este respeito a palavra do Espírito Santo:
“No muito falar não faltará pecado” – In muitiloquio non deerit peccatum (Pr 10, 19)
2.° Peca-se nas visitas muitas vezes por obras: tem-se maneiras muito familiares; usa-se de adornos pouco modestos; joga-se, dança-se, e praticam-se outras diversões que ofendem o decoro cristão.
3.° Peca-se nelas muitas vezes por omissão, não atalhando, quando se pode, o que se diz ou faz contrario à caridade, ao pudor ou o qualquer outra virtude; não procurando impedir o que pode afligir os outros, nem tornar a visita agradável a todos, de sorte que se retirem mais contentes e melhores.
Não temos pecado nas nossas visitas por algum destes modos?
TERCEIRO PONTO
Corre-se o perigo nas visitas de perder o espírito Cristão
Se Pedro de Blois diz que, nas visitas, revive o mundo para aqueles mesmos para quem estava morto (1); se alguns séculos antes dele, um filósofo pagão disse: Todas as vezes que estive entre os homens, voltei menos homem (2); mais razão temos nós para dizer: Voltei das visitas menos Cristão. Com efeito poucas vezes deixam de ser perigosas. Perde-se nelas o tempo, toma-se o gosto à ociosidade e aborrecimento ao trabalho, às coisas da religião e salvação; adquire-se o espírito de relaxação, de distração e frivolidade, o amor do mundo, do jogo, e dos divertimentos; ouvem-se e vêem-se coisas próprias para seduzir o coração; contraem-se inclinações perigosas; busca-se agradar, principalmente às pessoas de outro sexo, acha-se muitas vezes ocasião de pecado. Para cúmulo de desgraça, quantas mais visitas se fazem, mais desejos se tem de as fazer; tornam-se como que uma necessidade da vida; multiplicam-se, prolongam-se, quase sempre com detrimento dos deveres do estado.
Não estamos nós neste caso?
Resoluções e ramalhete espiritual como acima
Referências:
(1) Harum occasione, mundus qui in ipsis arierat, revivescit (Ep. 8)
(2) Quoties inter homines fui, minor homo redii (Sêneca)
(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 54-57)
