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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria
Monsenhor André Jean Marie Hamon

O Levantar da Cama

Oitava Semana depois de Pentecostes

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon

Meditação para o Sétimo Sábado depois de Pentecostes

SUMARIO

Trataremos das ações particulares, que nos prescreve a nossa regra de vida. Começaremos pela ação de levantar da cama, que é a primeira do dia, e veremos:

1.° A importância de a fazer bem;

2.º A maneira de a fazer bem.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos erguermos da cama sempre na hora determinada e de pronto;

2.° De acompanhar esta ação com modéstia, com espírito de piedade, e principalmente com a preparação do objeto da nossa oração.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São João Crisóstomo.

“Dai ao Senhor as primícias do vosso dia; ele será todo daquele que o ocupar primeiro” – Domino primitias diei tuœ; erit enim tota illius qui prior occupaverit (São João Clímaco, gr. 26, num. 103)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor Jesus Cristo sujeitando-Se a todas as fraquezas do homem: dormiu, acordou, levantou-Se da cama, vestiu-Se como nós; mas fez estas ações com admiráveis disposições, despertando Seu sono com o mesmo amor que, no dia encarnação, o fez sair do repouso, que gozava no seio de Seu Pai, para vir à terra trabalhar pela nossa salvação. Bendigamo-lO por nos ensinar com exemplo a começar santamente o dia.

PRIMEIRO PONTO

Importância de fazer cristãmente a ação de levantar da cama

Dai a Deus as primícias do vosso dia, diz S. João Clímaco: porque ele será todo daquele que o ocupar primeiro. Se, apenas acordamos, nos entregarmos a Deus de todo o nosso coração, não nos será difícil conservar-nos com esta disposição todo o dia. Sejam para Deus o nosso primeiro pensamento, as nossas primeiras palavras, a nossa primeira ação, os nossos primeiros sentimentos. O nosso primeiro pensamento, representando-no-lO ao nosso lado, que vigiou sobre nós durante a noite e nos oferece a Sua assistência para todo o dia; as nossas primeiras palavras, pronunciando os nomes de Jesus, Maria e José; a nossa primeira ação, fazendo o sinal da cruz; os nossos primeiros sentimentos, tributando-Lhe toda a nossa adoração, o nosso amor e reconhecimento, e oferecendo-Lhe todo o nosso dia com a intenção de não viver um só instante senão para Ele em Jesus Cristo (1). A alma que estiver nestas santas disposições terá grande facilidade em se conservar nelas. Se ao contrário começamos o dia na dissipação, no esquecimento de Deus, na busca das nossas comodidades, no amor dos nossos caprichos e das nossas fantasias, na ociosidade, na relaxação, ser-nos-á tanto mais difícil mudar estas más disposições, que não pensaremos todo o dia no nosso deplorável estado, nem no dever de nos emendarmos. E porque, pois, recusaríamos nós a Deus as primícias do dia, que sabemos que Lhe agradam? Seria uma injustiça, pois que esses primeiros momentos Lhe pertencem (2); seria uma ingratidão depois do benefício da nossa conservação durante a noite; seria uma cegueira, porque esta primeira ação dependem todas as outras, e interessamos muito em fazê-la bem. Temos nós até ao presente refletido seriamente sobre a importância de fazer bom esta ação?

SEGUNDO PONTO

Maneira de fazer santamente a ação de levantar da cama

Três virtudes devem santificar esta primeira ação do dia: a obediência, a modéstia e a devoção.

A obediência quer, que nos levantemos da cama na hora determinada na nossa regra de vida, sem nada conceder à preguiça nem ao devaneio, e que empreguemos o menor tempo possível em vestir-nos: porque empregar nesta ação mais tempo do que o estritamente necessário, é desperdiçá-lo.

A modéstia quer, por seu lado, que evitemos o mais possível toda a nudez, todo o esmero no traje, todo o demasiado apuro no adorno e asseio do corpo, assim como todo o desalinho, propondo-nos por modelo o perfeito decoro, que guardavam nesta ação Jesus, Maria e José.

Finalmente, a devoção deve encher o nosso interior de pios e santos pensamentos:

“Gravareis as minhas palavras no vosso coração, diz Deus ao seu povo, e as meditareis ao levantardes” – Meditaberis in eis… dormiens atque consurgens (Dt 6, 7)

É a ocasião de dizer ao Senhor:

«Graças vos dou, meu Deus, por me terdes conservado durante esta noite; por me terdes concedido este dia para obrar a minha salvação; por me terdes dado estas vestes para me cobrir, quando muitos outros apenas possuem andrajos. Estas vestes, meu Deus, ao passo que excita o meu reconhecimento, me enche de confusão: recorda-me, que o pecado me pôs abaixo dos animais, que não precisam de se vestir; estas vestes são o triste indício da minha inocência perdida; são despojos de animais. Que humilhação para o homem, ser obrigado a recorrer a isto! Ó Jesus! Sede meu vestido, como diz o Apóstolo (3), isto é, fazei que eu tenha em tudo os Vossos sentimentos, o Vosso modo de pensar, de falar e de obrar, e que Vos imite tão bem, que pareça que a Vossa sagrada pessoa cobre a minha. Neste intuito, Senhor, vou dispôr-me a fazer bem a minha oração»

Então lembramo-nos do objeto da nossa meditação, e nele nos ocupamos até ao momento de a começar. É deste modo que costumamos obrar ao levantarmo-nos da cama?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Viventes Deo in Christo Jesu (Rm 6, 11)

(2) Primitiae Domini sunt (Nm 31, 29)

(3) Induimini Dominum Jesum Christum (Rm 13, 14)

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 294-297)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.