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Monsenhor André Jean Marie Hamon

Espírito de Obediência

Quarta Semana depois da Epifania

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon

Meditação para a Quinta-feira da 4ª Semana depois da Epifania

SUMARIO

Aprendemos ontem de Jesus no templo o espírito de sacrifício; aprenderemos o espírito de obediência; e para nos dispormos a entrar neste espírito, veremos que nada há:

1.° Mais excelente do que a obediência;

2.° Nada mais edificante;

3.° Nada mais consolador.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De praticarmos todas as nossas ações por espírito de obediência à vontade de Deus;

2.º De nunca fazermos coisa alguma por atrativo ou gosto natural, assim como de nunca omitirmos coisa, alguma por desgosto ou repugnância.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Nosso Senhor no dia de Sua Apresentação:

“Eis que venho para fazer, ó Deus, a vossa vontade” – Ecce veion, ut faciam, Deus, voluntatem tuam (Hb 10, 9)

Meditação para o Dia

Adoremos a admirável obediência de Jesus no mistério de Sua Apresentação. Obedece a Seu Pai, cuja vontade vem fazer:

“Ó Deus, diz ele, a vossa vontade é a minha; coloquei-a no meio do meu coração, para que regule todos os seus movimentos” – Deus meus, volui, et legem tuam in medio cordis mei (Sl 39, 9)

Obedece a Moisés Seu servo, cuja lei vem executar. Quarenta dias depois de nascer, todo o filho macho que for primogênito, dissera Moisés, será consagrado ao Senhor; cinco séculos serão o preço do seu resgate: e o que Moisés havia dito, Jesus o executa. Obedece a Sua Mãe, em cujas mãos se entrega, para que faça dEle o que lhe aprouver. Oh! Quão bem merece tanta obediência os nossos respeitos e louvores!

PRIMEIRO PONTO

Nada mais excelente que a Obediência

O mundo faz consistir a grandeza na independência e liberdade; obedecer é, em seu sentir, a sorte dos escravos, a condição dos miseráveis; e nada mais belo, mais sublime, mais invejável do que fazer a sua vontade em tudo. Jesus, a sabedoria eterna, pensa de muito diferente modo. A prova disto está no mistério deste dia e em toda a Sua vida que não foi senão um exercício contínuo de obediência; nenhum respeito se guardou a Si mesmo (1); a vontade de Seu Pai foi sempre a Sua (2). É porque efetivamente nada há mais excelente no céu e na terra do que ter por norma de proceder, não os caprichos da vontade humana, mas a própria vontade de Deus, a qual faz a norma e as delícias dos anjos e dos santos. Então toda a vida se enobrece, se engrandece; e não se é já pequeno nas pequenas coisas, nem maior nas grandes, porque a vontade de Deus, que forma a sua norma, o seu preço e mérito, é sempre igualmente excelente. Então a menor ação feita em vista e por amor desta santa vontade excede tanto as mais brilhantes obras inspiradas pela vontade própria, quanto a vontade divina excede a vontade humana. Deste modo elevam-se a um grau incomparável de grandeza e de excelência todas as nossas ações até as mais comuns, até as nossas refeições e as nossas diversões e os nossos passeios, até o nosso sono, o nosso silêncio e a nossa inação, quando esta está em harmonia com a vontade de Deus e a aceitamos com este intuito. Oh! Quão grande e admirável coisa é, pois, a obediência! Temos nós sabido até ao presente apreciá-la como merece? E julgamos belas as posições em que se obedece, temíveis aquelas em que se manda e em que se pode fazer a vontade própria?

SEGUNDO PONTO

Nada mais santificante do que a Obediência

1.° Ela corrige todos os extravios da vontade própria: esta vontade pérfida e enganosa vê somente as coisas pelo prisma das paixões e dos mesquinhos interesses, que alteram a verdadeira cor dos objetos; inconstante e volúvel, o que ela quer um dia, já o não quer no dia seguinte; incerta e irresoluta, não sabe muitas vezes a que ater-se, caprichosa, quer sem razão e contra toda a razão; obstinada, não sabe ceder e teima à medida que a contradizem altiva e imperiosa, não aspira senão a sacudir o jugo e a dominar; violenta e precipitada, impacienta-se, murmura, enfurece-se, se os seus desejos não são logo satisfeitos; finalmente, inimiga da lei, porque a lei a molesta, inclina-se a tudo o que é proibido. Só à obediência é dado corrigir tantos extravios: ela dirige esta vontade cega; fixa esta vontade inconstante; determina esta vontade irresoluta; endireita esta vontade caprichosa; dobra esta vontade obstinada; sujeita esta vontade altiva e imperiosa, esta vontade violenta e precipitada; retem ou repõe esta vontade perversa no bom caminho, se dele saiu.

2.° Depois de ter corrigido o mal, a obediência obriga a fazer tudo o que é bem. Nela está toda a perfeição: a humildade, a abnegação, a paciência, a união com Deus; a vida da fé, que sobrenaturaliza todas as ações; a vida de esperança, que alimenta uma série contínua de méritos; a vida de caridade, cuja mais excelente prática é a obediência. Nela, finalmente, está a fonte de todas as graças com o meio do mais seguro êxito para todas as boas obras.

É desta sorte que encaramos a obediência? Temos aversão à vontade própria, e gostamos de a sacrificar generosa e continuamente a Deus?

TERCEIRO PONTO

Nada mais consolador do que a Obediência

Quem segue a sua vontade própria é infeliz. O passado deixa muitas vezes após si o arrependimento do que fizemos, a desaprovação da nossa falsa prudência, o pesar das nossas falsas conjecturas. O presente entristece; oferece à alma desejos não satisfeitos, desconsolação e desgosto. O futuro inquieta: que farei? Que virá a ser de mim? Mas com a obediência, todos os motivos de aflição desaparecem. Então já não há pesar com relação ao passado: aquele que mandou, pode enganar-se, aquele que obedeceu, obrou sempre bem, e a sua consciência não tem direito de se queixar. Então já não entristece o presente: estou onde Deus quer, faço o que Lhe apraz: é o paraíso na terra. Então já não inquieta o futuro: que virá a ser de mim? O que Deus quiser; aonde irei? Aonde Deus quiser; e com esta única palavra a tranquilidade e a paz fixam-se na alma com inefável alegria. Vontade divina, onde me quereis? Para lá corro, para lá voo, eis-me aqui. Quero deixar-me guiar por Vós, como o menino pela mão de sua mãe.

Ó vida deliciosa! Ó paraíso antecipado! Que bela morte se seguirá a uma tal vida, quando, olhando para o passado, virmos todos os nossos dias preenchidos pela vontade divina! Como seremos bem recebidos no céu, que fará ressoar o cântico da vitória! (3)

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Chrsitus nob sibi placuit (Rm 15, 3)

(2) Pater… non mea voluntas, sed tua fiat (Lc 22, 42)

(3) Vir obediens loquetur victoriam (Pr 21, 28)

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 260-263)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.