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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria
Monsenhor André Jean Marie Hamon

Dos danos que o Pecado nos Causa

Quarta Semana da Quaresma

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon

Meditação para a Segunda-feira da Quarta Semana da Quaresma

SUMARIO

Continuaremos as nossas meditações sobre os motivos de contrição, e veremos:

1.° Os males que nos causa o pecado venial;

2.° Os males multo maiores ainda que nos causa o pecado mortal.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De termos horror aos menores pecados e de nos conservarmos humilhados diante de Deus por termos cometido tantos no decurso de nossa vida;

2.° De fugirmos, mais que da peste, das menores ocasiões do pecado, de desconfiarmos de nós mesmos, de vigiar e orar para não recair para o futuro.

Conservaremos como ramalhete espiritual as palavras do publicano:

“Meu Deus, sê propício a mim, pecador!” – Deus, propitius esto mihi peccatori (Lc 18, 13)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor Jesus Cristo coberto de chagas e pregado na cruz por causa dos nossos pecados. Os nossos crimes são os Seus algozes, e nós somos os Seus homicidas. Ó Deus, minha vítima! Eu adoro-Vos e amo-Vos; deploro a minha soberba, que Vos coroou de espinhos, a minha moleza que lacerou os Vossos membros, o meu amor da independência, que Vos cravou na cruz. Ó divino crucificado! Infundi-me no coração o ódio ao pecado, a esse tão grande mal que não pode ser reparado senão pela Vossa morte, e fazei que eu compreenda os males que ele me causa.

PRIMEIRO PONTO

Males que nos causa o Pecado Venial

Seria impossível dizer todos os males que nos causa o pecado venial. Na outra vida, se não é expiado, retardará para nós as delícias do céu, talvez por largos anos, e nos custará terríveis castigos. Até depois de ter sido expiado, nos privará por toda a eternidade, do grau de glória e de felicidade a que nos teria elevado o ato da virtude contrária. Nesta vida, resfria a amizade de Deus e diminuem as Suas graças, as Suas graças tão necessárias todavia à nossa fraqueza; minora em nós a fé e o sentimento das verdades eternas; tira à alma esse terno gosto da piedade, esses gozos do Espírito Santo, essas delícias da inocência; afrouxa a verdade, dispõe-a pouco a pouco para o mal, abafa o remorso, dissipa a vigilância, e conduz por isso a grandes recaídas, que são sempre a consequência de uma série de relaxações. Emfim, quando se tornou em hábito, reduz a alma a um estado pior que a morte, à tibieza (1). Porque o caráter fundamental deste horrível estado é o hábito dos pecados veniais. É por esta razão; que Santa Tereza nos diz que Deus lhe mostrou um dia o lugar que ela teria ocupado no fundo do inferno, se houvesse cedido a uma tentação de vaidade. Ó meu Deus! Quão funesto nos é, pois, o pecado venial! E não obstante isto, temo-o tão pouco, cometo-o tão facilmente! Ó Senhor, inspirai-me o horror a ele para sempre!

SEGUNDO PONTO

Males que nos causa o Pecado Mortal

1.º Tira-nos a amizade de Deus, e deixa-nos o Seu ódio. Antes de pecar, éramos o filho amado de Deus, o Seu templo, e o objeto de toda a Sua complacência. Erguíamos ao céu olhos cheios de confiança, e ali víamos um Pai que não tinha a nosso respeito senão pensamentos de bondade e de amor. Mas, cometido o pecado, quanto muda a nossa sorte! E que desgraça não veio a ser a nossa! Escravo e habitação do demônio, filho de ira, objeto de maldição, não há já céu para nós, se não nos convertemos; há somente um juiz severo, cuja indignação nos ameaça. Ai! Por pouco que reflitamos, quão desgraçados somos quando nos domina este pensamento: Incorri no ódio de Deus!

2.° O pecado tira-nos a paz do coração, e deixa-nos o remorso. Quando se era inocente, era-se feliz; a tranquilidade reinava dentro de nós; e uma doce alegria revelava exteriormente a felicidade de um coração puro. Mas, pecando, a paz desapareceu e deu lugar à perturbação, ao remorso, à inquietação, à agitação da consciência, que se volta em todo o sentido, e não acha por toda a parte senão a desgraça. Porque Vós, Senhor, fizestes-nos para Vós; e fora de Vós não há paz nem felicidade.

3.° O pecado tira-nos todos os nossos méritos, e deixa-nos a nudez e a indigência. Tivesse um homem vivido sessenta séculos e adquirido a cada momento tantos méritos quantos adquiriram todos os santos: um só pecado mortal destrói tudo, tira à alma todos os seus méritos (2), e a torna incapaz de adquirir outros enquanto lhe estiver sujeita.

4.° O pecado tira-nos o Céu, e deixa-nos o inferno. Enquanto nos achamos em estado de pecado, não podemos aspirar a esses belos tronos, em que devíamos estar sentados, nem a essas corôas, que deviam cingir-nos a fronte, nem à companhia tão deliciosa dos anjos e dos santos, de Maria e da santa humanidade de Jesus Cristo, nem à posse de Deus. O inferno é a única sorte que nos resta. Estão os demônios ao pé de Deus, pedindo licença para ali precipitar o pecador? (3) Que situação, grande Deus! Só um passo me separa do inferno. Não é para mim que ribomba o trovão? Que temerário, que imprudente sou! Perdão, meu Deus, misericórdia! Eu deploro o meu pecado, detesto-o de toda a minha alma.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Utinam frigidus esses! (Ap 3, 15)

(2) Manum suam misit hostis ad omnia desiderabilia ejus (Lm 1, 10)

(3) Vis? Imus? (Mt 13, 28)

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 162-165)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.