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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria
Monsenhor André Jean Marie Hamon

Confiança em Deus

Vigésima Quarta Semana depois de Pentecostes

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 9, 18-26

Naquele tempo, 18enquanto Jesus lhes dizia estas coisas, aproximou-se um chefe que se prostrou diante dele e disse: «Minha filha acaba de morrer, mas vem impor-lhe a tua mão e viverá.»

19Jesus, levantando-se, seguiu-o com os discípulos. 20Então, uma mulher, que padecia de uma hemorragia há doze anos, aproximou-se dele por trás e tocou-lhe na orla do manto, 21pois pensava consigo: ‘Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada.’ 22Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse-lhe: «Filha, tem confiança, a tua fé te salvou.» E, naquele mesmo instante, a mulher ficou curada.

23Quando chegou a casa do chefe, vendo os flautistas e a multidão em grande alarido, disse: 24«Retirai-vos, porque a menina não está morta: dorme.» Mas riam-se dele. 25Retirada a multidão, Jesus entrou, tomou a mão da menina e ela ergueu-se. 26A notícia espalhou-se logo por toda aquela terra.

Meditação para o 23º Domingo depois do Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o Evangelho do dia, e aprenderemos:

1.° A recorrer a Deus com confiança em todas as nossas aflições;

2.° A não confiar nas criaturas.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De não contarmos com os meios humanos para remover as dificuldades em que nos acharmos;

2.° De chamarmos então Deus em nosso socorro com orações fervorosas, perseverantes, acompanhadas de humildade em vista das nossas misérias, e de confiança na misericórdia divina.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Eclesiástico:

“Nenhum esperou no Senhor, que fosse confundido” – Nullus speravit in Domino et confusus est (Ecl 2, 11)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor curando os enfermos que recorrem a Ele, e ensinando-nos com isso que é a Ele que devemos recorrer nas penalidades da vida. Admiremos e respeitemos o seu poder; bendigamos a Sua bondade.

PRIMEIRO PONTO

Devamos em todas as nossas aflições recorrer a Deus com Confiança

O Evangelho deste dia mostra-nos, antes que tudo, um príncipe da sinagoga que, aflito com a morte de sua filha, se chega a Jesus, se lhe prostra aos pés, e O adora como senhor da vida e da morte:

“Senhor, diz ele, a minha filha acaba de expirar agora; mas vinde, ponde a vossa mão sobre ela, e viverá”

É possível haver mais fé no poder do Salvador, mais confiança na sua bondade? Por isso a sua fé e confiança não ficaram frustradas. Jesus toma pela mão a menina, e ela levanta-se. A cura é subitânea, completa; todos são forçados a reconhecer quanto convém confiar no poder e bondade de Jesus e quanto Ele sente os nossos males, e se compadece de todas as nossas aflições. No mesmo dia, uma mulher que, havia doze anos, padecia de um fluxo de sangue, não ousando apresentar-se diante do Salvador, tão indigna se julgava de Lhe falar, se chegou por detrás dEle, e Lhe tocou a orla do vestido, dizendo consigo mesma:

“Se eu tocar ainda que seja somente o seu vestido, serei curada”

Jesus, que conhecia o que se passava no fundo dos corações, ouviu o que ela dizia interiormente; e vendo, por um lado, tanta humildade, e por outro, tão viva fé e tão completa confiança no mais fraco dos meios, no simples contato do seu vestido, volta-se, e diz-lhe:

“Tem confiança, filha; a tua fé te salvou”

E imediatamente ficou sã. Admirável efeito da oração feita com humildade e confiança: a humildade sem a confiança é inútil; a confiança sem a humildade é presunção. A humildade e a confiança juntas podem tudo sobre o coração de Deus. Feliz aquele que com estas santas disposições assiste a Missa, comunga, visita o Santíssimo Sacramento, onde, muito melhor que o vestido do Salvador, possuímos o Seu sangue, a Sua alma e divindade.

SEGUNDO PONTO

Não devemos confiar nas criaturas

O príncipe da sinagoga tinha a sua casa cheia de parentes, de amigos, de carpideiras, de tocadores de flauta, e de uma multidão de gente, que havia acudido a consolá-lo. Mas que podia fazer toda essa gente para lhe aliviar a dor? Os homens, diz Jacó, são consoladores importunos (1), e todos os meios humanos, sem Deus, são insuficientes ou fracos para curar os nossos males. Por isso o Salvador manda sair da casa toda aquela gente; pois não precisa do concurso nem do sufrágio de nenhuma testemunha; basta Ele só para as obras que quer fazer, e prova-o ressuscitando com uma palavra a filha do príncipe da sinagoga. Não o provou menos claramente, curando de repente a pobre mulher que O seguia. Ela tinha recorrido a muitos médicos, e experimentado muitos remédios; mas tudo isto fôra inútil. Dirige-se então a Jesus com fé e confiança, e no mesmo instante fica sã. Tão verdade é, que devemos pôr em Deus só a nossa confiança, sem todavia desprezarmos os socorros humanos, porque seria tentar a Deus não recorrer a eles; mas, empregando-os, devemos esperar que não terão senão a eficácia que aprouver a Deus dar-lhes, e que não lh’a dará senão segundo a medida da nossa confiança no seu poder e bondade.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Consolatores onerosi (Jó 16, 1)

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 158-161)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.