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Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria
Monsenhor André Jean Marie Hamon

Ainda sobre as vantagens do exercício da Presença de Deus

Vigésima Semana depois de Pentecostes

Meditação espiritualMonsenhor André Jean Marie Hamon
Cristo consola um cristão junto a uma árvore com hera, símbolo da força e da alegria da união com Deus

Meditação para o Décimo Nono Sábado depois de Pentecostes

SUMARIO

Continuaremos a meditar sobre as vantagens do exercício da presença de Deus, e veremos:

1.° Que é a força do cristão;

2.° Que é a sua alegria.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De fazermos, consistir a nossa felicidade em estar na presença de Deus aplicando-nos nela sem contenção de espírito, mas com a expansão de um coração que se delicia em Deus e se regozija de tão augusta companhia;

2.° De reprimirmos a dissipação dos nossos sentidos e a vagueação do nosso pensamento.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Davi:

“Eu me lembrei de Deus, e nele achei a minha alegria” – Memor fui Dei et delectatus sum (Sl 76, 4)

Meditação para o Dia

Adoremos a Deus presente em toda a parte; abismemo-nos com amor na sua imensidade, como em um vasto oceano que nos penetra da sua essência; regozijemo-nos de estar nEle pela necessidade do nosso ser, assim como todas as criaturas, e tributemos-Lhe a nossa adoração, nosso louvor e amor.

PRIMEIRO PONTO

O exercício da presença de Deus é a força do cristão

O homem por si mesmo não é mais do que fraqueza e miséria. Cercam-nos o perseguem-nos tentações mais fortes do que nós (1). Umas vezes assaltam-nos pensamentos desanimadores; outras vezes desesperam-nos e põem em perigo a nossa virtude as tribulações da vida. Mas logo que nos unimos a Deus, o temos a nosso lado, oferecendo-nos o seu socorro e a sua graça na terra, com as suas recompensas na vida futura, esperando que o nosso coração fale para nos proteger e defender, imediatamente recobramos ânimo e confiança; sentimo-nos cheios da própria força de Deus, e cantamos com o Salmista:

“O Senhor é o meu esteio, o meu refugio, o meu salvador; Deus é a minha ajuda, e eu esperarei nele; é o meu defensor e a força de que depende a minha salvação: louvando-o, o invocarei, e ele me salvará dos meus inimigos” – Dominus firmamentum meum, et refugium meum, et liberator meus. Deus meus adjutor meus, et sperabo in eum, Protector meus, et cornu salutis mem, et susceptor meus. Laudans inuocabo Dominum; et ab inimicis meis salvbus ero (Sl 17, 8ss)

A hera desamparada não faz senão rastejar pelo chão; mas unida a uma grande árvore, eleva-se até às maiores alturas: imagem fiel do cristão, que anda unido a Deus: triunfa do demônio, do mundo e da carne, sem que nenhuma tentação possa abalá-lo, nem nenhuma paixão dominá-lo.

Se examinarmos a nossa consciência, veremos que as nossas culpas e fraquezas não provém senão da dissipação em que vivemos, a qual nos entrega, como uma cidade sem defesa, a todos os assaltos do inimigo.

SEGUNDO PONTO

O exercício da presença de Deus é a alegria do cristão

“Tive momentos de cruéis angústias, nos refere o santo rei Davi, a minha alma recusava consolar-se” – Renuit consolari anima mea (Sl 76, 8)

“Lembrei-me de Deus, e nele achei a minha alegria” – Memor fui Deu et delectatus sum (Sl 76, 4)

“No dia da minha tribulação busquei a Deus, estendi as minhas mãos de noite para ele, e não fui enganado” – In die tribulationis meae Deum exquisivi, manibus meis nocte contra eum: et non sum deceptus (Sl 76, 3)

“Via-o à minha mão direita para me amparar; por isso o meu coração se alegrou; a minha língua cantou cânticos de jubilo e o meu corpo descansou na paz” – Providebam Dominum in conspectu meo semper: quoniam a dextris est mihi, ne commovear. Propter hoc laetamea requiescet in spe (Sl 15, 8)

Experimentamo-lo nós mesmos. Quando estamos aflitos, sentimos uma indizível consolação em representar-nos Deus ao nosso lado, e em expandir no seu coração paternal o nosso coração aflito.

Quando temos alegria, ela é mil vezes mais doce expandida no coração de Deus e gozada por Deus.

Quando nos sentimos como que desamparados neste lugar de desterro, basta que nos lembremos que não estamos sós, que temos Deus conosco: o Pai, que se chama o Deus de toda a consolação (2), o Filho, que nos amou, até morrer por nós; o Espírito Santo, que se chama o Paráclito ou o consolador das almas; e a sua providência mais que maternal, que nos ama, que nos quer bem: e lembrando-nos disto, consolamo-nos.

Finalmente, em qualquer posição que nos achemos, sentimos uma inefável alegria e como que um antegosto do paraíso em pensar que vivemos em Deus, em Deus infinitamente bom e, perfeito; e com estes bons pensamentos, o nosso coração dilata-se, sentimos que Deus só é tudo, amamo-lO e somos amados por Ele. Que mais é preciso para ser feliz?

“Os justos, exclama Davi, se regozijem e se transportem de alegria na presença de Deus” – Justi epuientur et exultent in conspectu Dei; et delectentur in laetitia (Sl 67, 4)

Nada poderia perturbar aquele que sabe conservar-se na presença de Deus, e dizer consigo cheio de fé:

Eu estou em Deus, meu melhor amigo, meu protetor e meu amparo, em Deus que vela sobre mim, como se eu fosse só no mundo e Ele não tivesse que pensar senão em mim, em Deus, que é as minhas delícias e o meu sumo bem, em Deus que eu possuo e gozo à minha vontade.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Pericula inferni inoenerunt me (Sl 114, 3)

(2) Deus totius consolationis (2Cor 1, 3)

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 84-87)

Fonte consultada

Texto de Monsenhor André Jean Marie Hamon, da obra publicada originalmente em Paris em 1881. Conteúdo consultado em Rumo à Santidade.